O papel da Biblioteca escolar na formação do leitor
Cristina Rondon Mattana
Biblioteca: um espaço de interações
Pensar na biblioteca escolar nos dias de hoje significa concebê-la como um espaço de interações e de compartilhamento de experiências. Significa também pensar nela como um capital coletivo – uma reunião de um número significativo de documentos que possam abarcar toda sorte de textos sociais em uso, nos mais variados suportes e que atendam a comunidade de leitores que a freqüenta.
O mais importante não é reunir um número vastíssimo de livros, mas conceber um acervo que reúna um conjunto sempre atualizado de obras que sejam referências culturais, possibilitando que crianças e jovens possam compreender os usos da escrita em diferentes circunstâncias, gêneros e suportes.
Todo indivíduo que se encaminha para uma biblioteca tem em mente uma necessidade a ser suprida. Seja quando está à procura de informações para aprofundar um conhecimento, seja quando procura uma leitura de entretenimento. Portanto, cada biblioteca deve compor um acervo que considere a comunidade de leitores que atende.
O bibliotecário não pode mais atuar apenas como um organizador desse acervo, mas ser um mediador entre a criança ou o jovem e esse grande universo de fontes do conhecimento. E para ser esse mediador cultural, ele tem que, igualmente, beber dessa fonte, ou seja, ser leitor.
Para indicar um livro a um aluno, é imprescindível conhecer sua história pessoal de leitura – seu percurso-leitor –, ou como se tornou leitor. Conhecer que autores ele já leu, qual seu gênero favorito, que leituras foram significativas... O critério da idade que se usava anteriormente não considera o aluno em sua individualidade, nem as práticas de leitura que cada família realiza. E se o mediador não compartilhar de um mínimo de leituras em comum, ele não conquista a confiança do leitor. É preciso, portanto, ter uma grande bagagem cultural e conhecer o universo de interesses desse leitor em formação, além de lembrar que se esse mediador não for um leitor competente, poderá correr o risco de indicar somente as obras em destaque na mídia. Dessa maneira, o que se pretende é formar leitores conscientes e não meros consumidores de livros.
Na biblioteca, o aluno, munido das informações que o mediador lhe transmitiu, realiza sua escolha pessoal de leitura, tornando-se um sujeito ativo da cultura. E como afirma Daniel Pennac: “Com o direito de não ler o livro até o final se esse não correspondeu às suas expectativas, ou estava além de sua capacidade de compreensão”.
A freqüência à biblioteca escolar deve possibilitar ao aluno a aprendizagem de comportamentos-leitores – acompanhar um autor preferido, recomendar leituras, discutir interpretações, ler um trecho de um texto que considera belo, entre outros. Como afirma Delia Lerner: “Apropriar-se de uma tradição de leitura e escrita e assumir uma herança cultural para poder tornar-se um participante ativo e consciente em nossa sociedade”.
Tendo em vista os últimos resultados do INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional –, realizado em 2005, demonstrando que somente 26% da população brasileira tem domínio pleno das habilidades de leitura e escrita, e que esse resultado está associado a formas de desigualdade e exclusão social, as bibliotecas escolares representam um meio de se garantir a todos o acesso ao livro – porta de entrada ao mundo do conhecimento.
Nas bibliotecas do Sistema Objetivo, em São Paulo, está sendo desenvolvido um extenso programa de leitura, por meio de indicações literárias orientadas por 5 eixos principais: indicação de várias versões de uma mesma obra para permitir que alunos com percursos-leitores diferentes possam ter acesso à obra; ampliação do repertório com indicação de outros livros do mesmo autor; ampliação de repertório com indicação de outras obras relacionadas; indicação de autor/obra que esteja em evidência, de maneira que a biblioteca possa divulgar e estar atenta aos acontecimentos literários no mundo; indicação de novas aquisições, possibilitando que os alunos tenham acesso a obras atualizadas.
Uma grande preocupação é aliar o trabalho da biblioteca ao da sala de aula, de maneira que um projeto de formação de uma comunidade de leitores seja um objetivo da escola.
Foi adotada uma política de aquisição de livros criteriosamente selecionados e que farão parte de um acervo local em cada Unidade do Colégio. A primeira remessa foi recebida com entusiasmo pelos alunos e tem atraído cada vez mais freqüentadores às bibliotecas.
* Cristina Rondon Mattana
Pedagoga e responsável pelo Programa de Leitura das Bibliotecas do Sistema Objetivo de São Paulo
Referências Bibliográficas:
LERNER, Delia. Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário. Porto Alegre: Artmed, 2002.
PENNAC, Daniel. Como um romance. Trad. Leny Werneck. 4. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
PERROTTI, Edmir. Confinamento cultural, infância e leitura. São Paulo: Summus, 1993.