Material didático e criatividade: parceria imprescindível na qualidade do Ensino Fundamental
Maria Teresa Vianna Van Acker
Nos dias de hoje buscamos tanto a universalização do acesso à escola quanto a qualificação da escolarização para a vida e para o mundo do trabalho. Sem dúvida, o desafio não é dos menores e ultrapassá-lo exige equacionar a estrutura de sistemas de ensino com a flexibilização do atendimento à diversidade da clientela. É indiscutível o fato de que fatores de ordem cultural e social afetam essa equação. Porém, do ponto de vista do funcionamento das instituições, há muito que se pode fazer no dia-a-dia de qualquer escola, quando se percebe com clareza a distinção e a complementaridade entre dois planos de seu funcionamento: a estrutura do sistema de ensino, sua dimensão macro, e a sala de aula, sua dimensão micro. Tornar possível essa complementaridade é o desafio de todos os que trabalham, ao mesmo tempo, com essas duas dimensões, procurando articulá-las. É a partir da coordenação da área de História que me deparo com esse desafio e teço estas reflexões.
O conteúdo curricular das disciplinas escolares é distribuído ao longo do ano por períodos (semestres, trimestres ou bimestres) compostos por aulas, as menores “unidades” temporais da escola. Assim, planejam-se os cursos em função do calendário e do conteúdo. No caso do Sistema Objetivo o planejamento se corporifica no material didático entregue aos alunos a cada bimestre e programado por aulas. A palavra aula, nesse contexto, diz respeito à unidade estruturante do Sistema Objetivo de ensino e o vocábulo é utilizado freqüentemente para designar a matéria escolar. Porém, a mesma palavra designa o espaço temporal em que o professor se encontra com seus alunos em uma sala para construir algo. Esse algo é o saber que se constrói em grupo com a colaboração entre o professor e os alunos.
A aula como unidade estruturante do Sistema Objetivo tem grande importância, pois se integra ao movimento dinâmico de cada uma das escolas que utilizam o material didático. Este é o veículo por excelência dos conteúdos disciplinares e das propostas de atividades que procuram assegurar aos alunos o acesso a uma parcela da herança cultural da sociedade através das práticas escolares. Na concepção e formulação do material organizado na seqüência cronológica das aulas há um saber-fazer revelador da força cultural da instituição escolar, que há pelo menos cinco séculos aprimora seu modo de ser através das disciplinas escolares e da organização do tempo – as aulas.
O material didático sempre evidencia o fazer cultural que instituiu à escola. Quanto ao conteúdo curricular, ele pretende corresponder às necessidades atuais: garantir a permanência dos temas clássicos valendo-se de estratégias renovadas que permitem que cada aluno situe o fato, a época ou o processo estudados a partir dos interesses do nosso tempo e de sua faixa etária.
Ainda que a estrutura do sistema de ensino, corporificada no material didático, seja bem concebida, ela não substitui nem a ação educativa, nem a ação pedagógica. A ação que dá sentido à aula para aqueles que são a razão de ser do material didático é produzida pelos próprios sujeitos que dela participam. Portanto, a aula é, também, interação para a construção de um saber. Esse outro sentido da palavra aula não se confunde com a organização do currículo, com a grade horária e com o conteúdo disciplinar, ainda que deles dependa quase visceralmente.
O que, então, é essa aula? Essa aula não se confunde também com a reunião de alunos e professor em uma sala, nem com qualquer prática definida por um método. O que mais se aproxima dessa “aula–ação” é o que todo professor e todo aluno denominam de boa aula. Todo professor sabe o que é a boa aula, porém não é nada fácil defini-la. Na fala de um professor, hoje coordenador de uma escola pública: “A boa aula é aquela em que os alunos aprendem”. A boa aula é aquela em que o professor se apropria do material didático e o utiliza a seu favor e segundo o seu estilo. A boa aula não resulta apenas do planejamento nem do material. A boa aula é um espaço de criação onde atuam professor, aluno e o saber e como tal tem os limites da estrutura física e institucional que o envolvem e é, ao mesmo tempo, ilimitado, pois o que ali se faz é criação, não pode ser previamente planejado no que diz respeito ao alcance da aprendizagem realizada por cada um dos participantes, alunos e professor.
A boa aula é uma outra aula, intrinsecamente diferente e, ao mesmo tempo, interligada à aula que estrutura o material didático, tanto quanto o pulmão depende do esqueleto para funcionar em condições normais. Como estrutura, a aula do Caderno permanece registrada em um suporte (papel ou CD-Rom), permanece como costume, tradição que se reatualiza. Como espaço de criação, a boa aula é efêmera, movimento feito do envolvimento dos sujeitos em um projeto de conhecimento. Cada um de nós lembra-se de boas aulas.
Ainda que não tenhamos a fórmula dessa aula, guardamos na memória nossas experiências de boa aula. Sobre ela, a única certeza que podemos ter é que essas aulas eram e são momentos de criatividade em que, no enquadramento da aula do currículo, do horário escolar e nos limites do prédio, surge um espaço de criação em que alunos e professor aprendem, ou seja, transformam reorganizando de outra maneira seus conhecimentos.
* Profa. Maria Teresa Vianna Van Acker é coordenadora da área de História do Ensino Fundamental (5ª a 8ª série) do Sistema Objetivo de Ensino e doutoranda em Educação da FEUSP.