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Compreendendo a relação da educação física com a alfabetização
Sandra Regina Carulli e Genivaldo Severiano da Rocha

“O gesto caracteriza a expressão do ser, ele é para o movimento o que a palavra é para a linguagem.” (Mattos & Neira)

O movimento tem um papel fundamental no desenvolvimento do ser humano, específica e especialmente no da criança, tanto nos aspectos cognitivo e psicomotor quanto no afetivo-social, pois podemos entendê-lo como a primeira forma de comunicação, expressão, intenção, reivindicação, construção, organização, descoberta e manifestação que a criança encontra e apresenta no seu processo de interação e aproximação com o mundo dos objetos e pessoas.
Para Vitor da Fonseca (1995), “o movimento, mesmo o reflexo ou o movimento automático da respiração (o primeiro e o último movimento dos seres humanos), é sinônimo de vida, de presença e conhecimento. Portanto, onde há movimento há vida”.
A educação física, a partir do momento em que teve reconhecido o seu verdadeiro valor como componente curricular, vem, por meio de suas atividades, interdisciplinares, elaboradas e propostas por especialistas da área, tornar-se um importante e imprescindível aliado no desenvolvimento geral das crianças.
Hoje em dia, é muito comum a educação física estar envolvida nos projetos da escola e da comunidade, inclusive no processo de alfabetização; algo que, há alguns anos, era inconcebível, pois a visão que se tinha dessa “matéria” era a de apenas mais uma atividade.
Segundo Ferraz, em Educação física escolar: conhecimento e especificidade – a questão da pré-escola, a educação física, hoje, pode ser definida como uma disciplina cuja característica essencial é o movimento, e o objetivo principal é difundir conhecimentos teóricos e práticos sobre a motricidade humana, visando a uma melhor qualidade de vida. Não há educação física sem movimento humano.
Por meio de metas bem claras e direcionadas à estruturação de um trabalho com o corpo, é possível proporcionar à criança elementos que lhe garantam um bom desenvolvimento motor e que favoreçam a conquista da autonomia.
O processo de aprendizagem caracteriza-se por uma transformação progressiva das capacidades motoras da criança, em função das situações de desafio em que ela é colocada.
“O educador deve ser sensível a estes elementos que afetam de forma diversa o processo de aprendizagem. Neste sentido, a aprendizagem é facilitada por um contexto:

  1. que ajuda o aluno a ser ativo;
  2. em que a criança se sente motivada;
  3. que incentive a descoberta;
  4. que respeita a individualidade da criança;
  5. no qual a divergência de idéias é considerada como boa e desejável;
  6. no qual se reconhece à criança o direito de fazer erros;
  7. no qual a incerteza é tolerada;
  8. que encoraja a comunicação;
  9. em que a criança é encorajada a ter confiança em si mesma e no exterior;
  10. que permita a confrontação.” (Neto, Carlos Alberto Ferreira. Motricidade e jogo na infância. Rio de Janeiro: Sprint Editora, 1997)

Mas o que é alfabetização e como a educação física pode auxiliar nessa etapa de aprendizagem?
Tanto os educadores como os pais preocupam-se muito com a palavra escrita, em ensinar a ler e a escrever, mas isso é uma das etapas do desenvolvimento que, sem uma estrutura anterior, condições, experiências, vivências, será mais difícil de alcançar. Alfabetização não significa ler e escrever, simplesmente. É um processo que se inicia ainda no ventre materno, quando o bebê começa a ouvir sons, a levar o dedo à boca, e continua à medida que a criança combina e experimenta objetos, constrói, reconstrói, dramatiza e desenha, ampliando seu campo de ação.
Faz-se necessário discutir e considerar, na realidade, o ato de escrever, devido à sua grande complexidade como ato motor. Para o desenvolvimento da escrita, devem ser considerados os fatores:

  1. desenvolvimento motor;
  2. desenvolvimento cognitivo e afetivo;
  3. desenvolvimento da linguagem;
  4. estruturação espaço-temporal;
  5. experiências e exercícios gráficos específicos.

Qualquer exercício motor faz o indivíduo funcionar como um todo. Logo, a mão com a qual a criança escreve faz parte de um todo que necessita de um equilíbrio perfeito para chegar à grafia. A criança aprende a partir de um corpo, de um organismo. Aos seis anos, em seu desenvolvimento motor, mais precisamente na evolução do esquema corporal, a criança está na fase do corpo percebido ou descoberto, ou seja, ela toma consciência de suas características corporais e as verbaliza, produzindo ações que tornarão possível a melhor dissociação de movimentos.
Dessa forma, a grafia, dentro de seus estágios de evolução, será mais significativa, mais elaborada, a partir do trabalho conjunto dos docentes de sala e professores de educação física.

Sandra Regina Carulli é coordenadora-geral da Educação Infantil do Sistema Objetivo de Ensino, pedagoga, psicopedagoga, especialista em educação infantil.

Genivaldo Severiano da Rocha é professor de Educação Física do Sistema Objetivo de Ensino, pedagogo, pós-graduado em magistério do ensino superior e em psicomotricidade.

Bibliografia

Educação Física Escolar: conhecimento e especificidade – A questão da pré-escola. Osvaldo Luiz Ferraz. Revista Paulista. Escola de Educação Física e Esporte – Universidade de São Paulo. Supl. 2, p.16-22, 1996.

FONSECA, Vitor da. Manual de observações psicomotoras. Porto Alegre: Editora Artes Médicas, 1995.

MATTOS, Mauro & NEIRA, Marcos. Educação Física Infantil: Inter-relações movimento, leitura, escrita. São Paulo: Phorte Editora. 2002.

NETO, Carlos Alberto Ferreira. Motricidade e jogo na infância. Rio de Janeiro: Sprint Editora, 1997.

PETRY, Rose Mary. Educação física e alfabetização. Porto Alegre Editora Kuarup.1991. Série Alfabetização.

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