Da infância à adolescência – uma discussão de valores e interesses durante a aula de Inglês
por
Elaine de Fátima Perrone
“Eu não estou criando entretenimento para os críticos, mas sim para o público.” Walt Disney
Foi pensando na afirmação acima que resolvi aproveitar as obras de Walt Disney nas aulas da disciplina de Inglês do Sistema Objetivo de Ensino. Minhas razões para isso se resumem em duas: primeiro, por uma questão pessoal, pois Walt Disney remete à minha infância, e segundo porque como professora notei que os seus desenhos animados contribuem com os desenvolvimentos social, afetivo, cognitivo e psicológico das crianças.
Esse foi o ponto de partida para que, então, eu passasse a pesquisar e ouvir depoimentos, com os mais variados profissionais, sobre o que se esconde atrás das obras de Disney, seus personagens e os contextos que os envolviam. Minha intenção era aproveitar esse universo mágico para enriquecer as aulas de Inglês.
Escolhi quatro obras para serem analisadas pelos alunos de 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries, respectivamente O Rei Leão, Vida de Inseto, Hércules e A Bela e a Fera. Em sala de aula, nossa proposta começa por uma leitura detalhada em Inglês da história. Em seguida, os alunos fazem exercícios de vocabulário e interpretação de texto para, só assim, assistirem a trechos do DVD do desenho animado, com áudio e legendas em Inglês, cumprindo as funções de uma aula completa do ensino de uma língua estrangeira: leitura (reading), escrita (writing), oralidade (speaking) e compreensão (comprehension).
Começando pela obra O Rei Leão, que está na programação da 5a série, fazemos uma análise da importância da família, associando-a ao fato de que os alunos iniciam essa série por volta dos 10 anos, e que nessa fase são fundamentais a presença e o apoio familiar.
Em O Rei Leão, a força do pai e a proteção da mãe são os pilares de toda a narrativa. A criança, Simba, perde toda sua referência com a morte do pai, e acredita ter sido a responsável por isso. Sua partida pode ser encarada como uma fuga. Sem o apoio dos pais e da família, ele fica vulnerável e perdido. Claro que, assim como nosso aluno, ele tem amigos e alguém em quem confiar, e é por meio deles que ele toma coragem para encarar as adversidades que o aguardam nessa nova fase de sua vida. Situações semelhantes são passíveis de acontecer com o aluno durante a passagem da 4ª para a 5ª série; essa transição pode ser vista como um grande desafio. Tal qual Simba, uma criança pode até se assustar no início, mas juntamente com sua família, seus amigos e também seu professor, certamente cumprirá este ciclo da vida e encarará o próximo.
Na 6a série a obra escolhida é Vida de Inseto. Flik é o personagem de uma jovem formiga diferente das demais, que tenta ocupar seu espaço no formigueiro, mas que, para isso, tem que enfrentar muitas adversidades.
As crianças nessa fase (cerca de 12 anos) podem sentir-se inseguras e precisam de alguma forma ser aceitas no grupo, cujos membros normalmente apresentam diferenças, com suas características próprias e peculiaridades. Em Vida de Inseto, essas diferenças harmonizam-se umas com as outras, mas nem por isso deixam de ser latentes, beirando a estranheza e a esquisitice. Por exemplo, em uma comunidade onde todos falam a língua inglesa, há dois tatus-bola que só falam chinês, mas mesmo assim são entendidos por todos. Como professora, aproveito essa mensagem para abordar com os alunos a questão de que é perfeitamente possível conviver com as diferenças, respeitando as diversidades ao nos integramos a um grupo.
Por fim, Flik acaba se juntando a uma trupe de insetos “decadentes” e muito estranhos, mas que, por outro lado, conseguem se unir e “salvar” o formigueiro de toda a opressão dos gafanhotos. A união faz a força e todos ficam felizes com suas diferenças e com suas contribuições ao grupo.
A pré-adolescência faz com que essas diferenças sejam muito mais notadas e, em muitos casos, também causem desconforto e exijam perseverança. Flik é um exemplo perfeito de diferença e força.
Na 7a série, a adolescência faz-se presente e o aluno precisa reafirmar seus interesses, suas dúvidas, necessidades e, principalmente, seu lugar na sociedade. Seus horizontes expandem-se e ele sente que há muito mais “lá fora” a ser conquistado. Por isso a obra a ser estudada é Hércules. O nosso herói sabe que tem algo de diferente de todos os demais e, em vez de tentar ser igual a eles, resolve entender a si mesmo e buscar a realização de seus sonhos, sem ter que modificar sua personalidade ou jeito de ser. Ele se encontra e passa a perceber que todos aqueles que ele considerava estranhos agora fazem parte de sua vida e de seu mundo.
Assim como Hércules, o adolescente pode necessitar da presença de alguém “forte” para aconselhá-lo e ajudá-lo. Talvez o sátiro Phill, um outro personagem da história, seja um exemplo perfeito para mostrar que seu melhor amigo não precisa ser perfeito.
Com a chegada da 8a série, o adolescente passa a ter outros tipos de interesses, o primeiro amor, praticamente inevitável, é um deles. A melhor história para espelhar essa situação é a descrita no desenho A Bela e a Fera. Nossas “belas” e nossas “feras” percebem que o amor, a atração e até mesmo a curiosidade que sentem uns pelos outros transpõem toda e qualquer noção de beleza e perfeição.
O resultado desse trabalho tem sido excelente. Por meio dessa atividade, conseguimos aumentar o interesse dos alunos pelas aulas, que se tornaram também um espaço para o diálogo e para a troca de idéias; acompanhamos melhor uma linda fase da vida das nossas crianças; passamos a compreendê-las ainda mais a partir de personagens que não são apenas frutos da imaginação e da genialidade de Walt Disney, ou de seus colaboradores: esses personagens representam um pouco de cada um de nós e têm em cada uma de suas histórias algo a mais para nos ensinar.
Bibliografia
NADER, Ginha. Walt Disney: Um século de sonho. São Paulo: Editora Senac, 2003.
* Elaine de Fátima Perrone é coordenadora e professora da disciplina de Inglês do Ensino Fundamental (5ª a 8ª série) do Sistema Objetivo de Ensino.