Educação física escolar: aonde queremos chegar com ela?
Por:
Marcos F. Larizzatti
Todas as pessoas que estão lendo este texto provavelmente “estudaram” a matéria Educação Física por vários anos, assim como as disciplinas Matemática, Português, História etc. Mas podemos observar uma diferença fundamental quando perguntamos às pessoas o que elas aprenderam nestas outras matérias. Na maioria das vezes, elas nos respondem que aprenderam muitas coisas. Mas, quando a matéria é Educação Física, a resposta mais comum é que, no máximo, aprenderam algum(ns) esporte(s)...
Isso porque, na maioria das escolas por onde as pessoas passaram, o conteúdo, desde o ensino fundamental, era apenas esporte. E depois de formado no ensino médio, que tipo de informação restou da referida matéria? O indivíduo ganhou uma autonomia para administrar suas atividades físicas ao longo da vida? Nas disciplinas como Português e Matemática, normalmente podemos dizer que o indivíduo adquiriu autonomia, pois pode ler, escrever, fazer cálculos etc., mas, infelizmente, na área da Educação Física, alguns aprenderam apenas a praticar alguma modalidade esportiva.
Isso não deveria ocorrer, pois, afinal de contas, quantos anos nós “estudamos” a matéria Educação Física? Numa escola particular, normalmente teríamos: três anos em educação infantil, nove anos no ensino fundamental e três anos no ensino médio, totalizando, assim, quinze anos de estudo da Educação Física. O que faltou para adquirirmos essa autonomia, para que, por exemplo, um adulto saiba como fazer um planejamento das suas atividades físicas regulares, entenda os benefícios e malefícios das atividades físicas, entre outras questões? Muitos professores de Educação Física não sabem aonde querem chegar com suas aulas...
Um ponto inicial para refletirmos é: como podemos identificar alguém FISICAMENTE EDUCADO, isto é, que teve uma boa educação física depois de passar pela escola? Aqui vão algumas dicas:
1. O QUE SE PRECISA SABER?
2. O QUE A PESSOA DEVE CONSEGUIR FAZER?
3. COMO A PESSOA DEVE SE MANTER ATIVA?
4. ENTENDER A IMPORTÂNCIA CULTURAL DAS ATIVIDADES FÍSICAS
Por que isso não foi ensinado para a maioria da população? Podemos citar diferentes fatores, como falta de materiais para trabalhar variadas atividades, falta de infra-estrutura adequada (quadras, piscinas, pista de atletismo, salas com materiais para o estudo do movimento etc.), melhor formação dos professores, entre outros. Mas também porque a Educação Física teve diversos momentos ao longo da sua história que influenciaram o trabalho dos professores, desde uma educação física higienista no início do século XX (auxiliar na higiene, libertar de vícios e doenças), militarista nas décadas de 30 e 40 (inspirada na preparação de soldados para a guerra) até esportivista (formação de atletas olímpicos), que ainda hoje é a mais difundida nas escolas, pois o ensino é predominantemente esportivo, visando à formação de atletas.
Infelizmente esse tipo de educação física esportiva ensina poucos conhecimentos que poderiam trazer autonomia aos alunos, além de promover uma exaltação dos alunos mais habilidosos em detrimento dos menos habilidosos ou com problemas de obesidade, portadores de deficiências etc., que não conseguem atingir facilmente os objetivos esportivos impostos. Lembramos uma pesquisa realizada pela Revista de Saúde Pública de São Paulo que mostrava os principais fatores de risco para as doenças crônicas degenerativas (cardiopulmonares, metabólicas etc.): álcool (8%), obesidade (18%), hipertensão (23%), fumo (38%) e sedentarismo (70%). Assim, o sedentarismo ou a falta de atividades ou exercícios físicos é a principal causa dessas doenças e desde cedo devemos incentivar nossos alunos a praticar atividades físicas para que isso se torne um hábito também na idade adulta, minimizando o número de doenças.
Assim, o que precisamos fazer?
Existem três abordagens para se ensinar a Educação Física: educação DO movimento, ATRAVÉS do movimento e SOBRE o movimento. Dependendo da faixa etária, utilizamos predominantemente uma em relação às outras:
Essas abordagens são importantes e devem caminhar juntas para que a Educação Física seja mais completa e traga, no futuro, uma autonomia ao aluno. E também para que desde cedo os praticantes de atividades físicas sintam prazer em realizá-las e, conseqüentemente, tenham uma melhor qualidade de vida e saúde.
Um último ponto que gostaria de lembrar é que a aula de Educação Física possui um diferencial que a distingue das demais: a ludicidade. Normalmente, as aulas possuem um grande teor lúdico, com jogos, brincadeiras, atividades em grupos etc., em que o prazer em realizar as aulas está sempre presente. Se mantivermos esse aspecto lúdico nas nossas aulas, que deveria ser copiado pelas outras matérias, o sucesso na aprendizagem e aquisição de competências dos alunos será cada vez maior.
Marcos F. Larizzatti é professor de Educação Física do Colégio Objetivo e da Universidade Paulista (UNIP); Licenciado em Educação Física pela Universidade de São Paulo (USP); Pós-graduado em Psicomotricidade pela Universidade Paulista (UNIP); Pós-graduado em Fisiologia do Exercício pela Universidade de São Paulo (USP); Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie; Autor do livro Lazer e Recreação para o Turismo (Sprint, 2005).