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A humanização da Educação – uma escolha que precisamos fazer.
Por: Flori Jane Pizeli Teixeira Spósito

Vivemos uma época de transição e de profundas contradições. Mergulhados em paradoxos, pais, educadores e todas as pessoas interessadas em valores como eqüidade e justiça social lutam pela implantação de uma educação humanista. Procuram delinear uma pedagogia que sustente a demanda atual de respeito à dignidade humana, antevendo um mundo capaz de abarcar a diversidade humana e contemplar as necessidades de todos, indiscriminadamente.

Muitas escolas consideradas de excelência continuam desrespeitando direitos inerentes à condição humana: os direitos de “ser e estar”. Tais instituições contrariam a resolução do Conselho Nacional de Educação, que proíbe testes arbitrários e discriminatórios. Esse tipo de educação, que separa as pessoas em aceitáveis e não-aceitáveis, está na contramão dos novos princípios, que se fazem ouvir pelas vozes dos que reconhecem a dívida instaurada por séculos de injúrias impostas às pessoas que se encontram em desvantagem, por qualquer razão.

A educação, centrada na relação parcial com o humano, agoniza. O paradigma tradicional, centrado em modelos racionalistas, cujos princípios se fundamentam em valores individualistas de dominação, especialização e competição, não resiste à emergência do novo paradigma. Este propõe o enfrentamento dos novos desafios pela óptica da complexidade, da interdependência e da historicidade, elegendo valores favoráveis à visão inclusivista: a integração, a interdisciplinaridade e a cooperação.

O mundo tornou-se rapidamente acessível, funcionando a uma velocidade que gera a sensação de vivermos em uma aldeia de curtas distâncias. Ao mesmo tempo, insuflados pelo clima individualista dos dias atuais, nos surpreendemos distanciados do outro dentro de nossos próprios lares, esquecidos das tardes compartilhadas, dos passeios de mãos dadas, do abraço, do amor, da doçura...

Transformamos nossas crianças em pequenos adultos e alijamos os que não correspondem às nossas expectativas, envergonhando nossas fotos de família. Até quando iremos tolerar isso? Até quando privaremos os de nossa espécie de seus direitos naturais, afastando-os dos olhos da maioria, transformando-os em estranhos, quando deveriam crescer junto a nós, participando de uma prática educacional enriquecedora e ética?

Somos herdeiros de uma educação que secciona. Aprendemos a selecionar os belos, os perfeitos, e repudiar os imperfeitos, reproduzindo uma forma de relação perversa, condicionados, talvez, pela necessidade, pelo medo ou pela repulsa.

Na Antigüidade, alguns povos protegiam e cuidavam dos seus, enquanto outros dizimavam ou baniam do convívio comum os que consideravam inviáveis. Por que será que os povos não-protetores se impuseram por tanto tempo?

Qualquer que seja o motivo que nos tenha conduzido a eliminar, desdenhar, esconder ou embrutecer nossos semelhantes, é chegada a hora de revertermos esse quadro. Não apenas por uma questão legal, mas por uma questão de consciência. Há que se cultivar, intransigentemente, a consciência de que todas as pessoas têm o mesmo valor, independentemente de suas características pessoais.

Nós, educadores, temos uma opção ao mesmo tempo simples e complexa a fazer: escolher o mundo que queremos. Desejamos um mundo que perpetue a separação, a segregação ou um mundo que agregue, que comporte a todos e dê a cada um o que lhe cabe por direito?

É necessário coragem para assumir o novo e, principalmente, um novo complexo. Estar ou não preparado não é a questão, é a justificativa. Jamais estamos preparados para o que desconhecemos. Quem não se der oportunidade de acolher o outro e comprometer-se com a tarefa de descobrir novas formas de estar junto a ele (sem devolvê-lo, no meio do caminho), não poderá encontrar suas próprias respostas para esse desafio.

Há pessoas que não acreditam que a diversidade seja um valor. Entretanto, fracionar a realidade não a torna menos complexa, apenas velada. Caso queiramos tornar o mundo um lugar melhor, precisamos concentrar-nos nas possibilidades, não nas limitações; criar espaço para a mudança, antes que sejamos forçados a fazê-lo,   desapegando-nos dos preconceitos, acolhendo o novo, o inédito, e todas as transformações emergentes do processo de transição.

Nosso potencial e nossa tolerância à incerteza podem ir muito além do já experimentado. Precisamos romper com os paradigmas que embaraçam a evolução de forma planejada e consciente para garantir a sustentabilidade da espécie humana. Em vez de nos posicionarmos como reagentes à mudança, podemos abraçar o desafio e iniciá-la, nos âmbitos a que temos acesso.

Cabe a cada um eleger o mundo em que deseja viver.

Flori Jane Pizeli Teixeira Spósito é psicóloga, com especialização em Psicanálise no Sedes Sapientiae, pós-graduada em Psicopedagogia no Centro Universitário FIEO e coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental (1ª a 4ª série) do Colégio Objetivo.

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