A formação do leitor literário
* Por: Júlio César Michelato
Uma das mais importantes tarefas da escola é formar alunos leitores de textos literários, no entanto, os resultados desta tarefa nem sempre são satisfatórios: muitos professores sentem dificuldade em fazer que seus alunos leiam esse tipo de texto. Isso porque, ao chegar à escola, apresentam uma modesta história de leitura porque não gostam de ler.
A dificuldade de aproximação do leitor com o livro não é atual. No começo da Era Moderna, quando a prática de leitura começou a se expandir e a ocupar intensamente as pessoas da maioria dos grupos sociais e categorias etárias, foi considerada a corporificação do demônio. A popularização do livro não ajudou a mudar a imagem da leitura, considerada perigosa se aplicada em doses exageradas. Miguel de Cervantes ironiza essa idéia ao descrever seu mais famoso personagem – Dom Quixote – perdendo o juízo por ler muitos livros sobre cavalaria. Mas, bem antes de Cervantes já se falava nos males da leitura.
Com o passar do tempo, o sujeito “debilitado” pela leitura passa a ser definido pela marca de gênero: de leitor, ele se transforma em leitora, sendo a feminilidade, no caso, sintoma de fragilidade do indivíduo que se deixa dominar pelo mundo fictício e fantasioso transmitido pelos livros.
Nos primórdios da literatura infantil no Brasil, as primeiras formas de leitura confundiram-se com as destinadas aos adultos, chegando, com os primeiros colonizadores, narrativas orais que circulavam entre povos e cortes européias. Com a vinda de D. João VI e de outros nobres para cá, vieram também outras formas literárias mais elaboradas e cultas. Com a fundação de colégios e universidades gratuitos e com constantes mudanças no sistema escolar nacional, dando especial ênfase à leitura, iniciou-se a formação da sociedade letrada, a exemplo do modelo europeu, acreditando que apenas por meio da leitura é que os homens tinham acesso ao verdadeiro conhecimento da vida e dos padrões ou normas de comportamento a serem adotados ou repudiados. Desde os gregos, as letras eram vistas como exemplo de reflexão entre a história e a filosofia. Dessa forma, entende-se por que a literatura destinada às crianças e jovens surgiu e se desenvolveu sob a tutela da escola.
Atualmente, outras questões afetam o status da leitura como: O que ler? Como ler? Por que ler? Respondo a essas perguntas dizendo que não se deve conceber a leitura como ponto de chegada, mas sim como ponto de partida para o nosso próprio ato de pensar. Lêem-se pensamentos dos outros para pensar pensamentos próprios. Desse modo, a leitura contribui para o desenvolvimento da inteligência.
Como no passado, o livro parece sempre estar no banco dos réus. Muitas escolas equivocam-se preferindo obras literárias que não tragam problemas de compreensão e interpretação a seus alunos. Infelizmente, ao selecionar textos clássicos, mesmo com adaptações bem feitas, para a leitura de seus alunos, muitos professores partem do princípio de que o aluno não vai gostar daquilo que irá apresentá-lo, mas como opinar sobre o gosto do que nunca se experimentou? Ora, a leitura de textos literários ajuda a pensar, a estruturar o raciocínio; permite entender o universo em que vivemos; amplia o vocabulário; desenvolve a imaginação; prepara a pessoa para qualquer tipo de escrita. Só as obras bem escritas passam para a posteridade, tornando-se fonte de conhecimento e não apenas de entretenimento.
Outro equívoco da escola moderna é a maneira como se cobra a leitura de seus alunos. Programam-se palestras com escritores, criam-se estratégias para o estímulo da leitura nas aulas, o aluno lê, entusiasma-se pelo enredo, vive a vida das personagens, saboreia o texto para, em seguida, reduzir todo o processo a uma tarefa enfadonha: cobra-se a leitura em forma de fichamentos ou avaliações escritas. O prazer transforma-se em ato de punição e o aluno continuará lendo, apenas para não ser punido e não pelo gosto às letras. Há outros meios para avaliar essa atividade dos alunos, como: recriação do contexto, debates, dramatizações, rodas críticas de leitura, júris simulados e muitos mais. O estudante deve ter a liberdade de experimentar, recusar, reexaminar, comentar. Adquirido o gosto, é só aprimorá-lo.
Devemos nos lembrar, ainda, de que um dos fatores imprescindíveis à promoção da leitura de textos literários é que o próprio professor seja um leitor habitual e compartilhe com os alunos essa sua experiência prazerosa. O educador deve demonstrar paixão pela literatura e não utilizar-se dela como tarefa obrigatória.
Para a formação de leitores de textos literários, tanto o professor quanto a escola devem partir de alguns pontos básicos:
- acreditar na necessidade de que se leia com intensidade e qualidade, aulas maravilhosas não bastam para o aluno aprender, ele deve estudar e se esforçar;
- escolher e conhecer as obras propostas;
- promover a leitura sem cobrança apenas em provas escritas;
- conceber a leitura não só como prazer, mas também como fonte de pesquisa;
- promover freqüente contato dos alunos com textos literários e com os demais tipos de textos;
- mediar, sempre, o processo de interlocução do aluno-leitor com o texto;
- ter conhecimento fundamentado da natureza específica da literatura como categoria artística;
- conscientizar professores de todas as disciplinas que ler, entender o que se lê e escrever o que se pensa é, necessariamente, tarefa de todos e não somente dos professores de português.
Bibliografia:
COELHO, Nelly Novaes. Dicionário Crítico da Literatura Infantil e Juvenil Brasileira. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 2006.
YUNES, Eliana. Pensar a Leitura: Complexidade. Rio de Janeiro, PUC – Rio, 2002.
ZILBERMAN, Regina. Fim do Livro, Fim dos Leitores? São Paulo, Editora Senac, 2000.
Júlio César Michelato é graduado em Letras pela Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG); pós-graduado em Metodologia do Ensino de Português pela Universidade Estadual Paulista de Araraquara (Unesp); coordenador da disciplina de Português do 6º ao 9º ano (5ª a 8ª série) do Sistema Objetivo de Ensino.
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