Arteterapia mobilizando a criança disléxica em busca do resgate de sua auto-estima
* Por: Thais Helena de Moraes Gomes
A partir de minha própria experiência como educadora, durante vários anos pude observar que alunos que apresentavam transtornos de aprendizagem também possuíam como característica baixa auto-estima. Isso se deve ao fato de que essas crianças são, de alguma forma, estigmatizadas na sala de aula por não conseguirem bons resultados.
Antônio Manuel Pamplona Morais, em Distúrbios de Aprendizagem: Uma Abordagem Psicopedagógica (1997),diz que crianças com transtorno de aprendizagem são, muitas vezes, incompreendidas e não valorizadas por suas vãs tentativas de superar as dificuldades escolares, gerando assim, uma auto-imagem negativa e desmotivação para enfrentar os desafios da leitura e escrita. Já Robert Frank, em A Vida Secreta da Criança com Dislexia (2003), afirma que “As crianças aumentam sua auto-estima a partir do momento em que aprendem a reagir a si próprias de forma positiva, quando as metas são atingidas”.
A arteterapia surge nesse contexto como facilitadora e promotora de subsídios capazes de proporcionar e criar condições para o despertar das potencialidades latentes, incentivando a autonomia e a motivação pessoal, melhorando assim a imagem da criança.
A dislexia, a auto-estima e a arteterapia
Existem várias subcategorias de transtorno de aprendizagem e a dislexia é apenas uma delas. De maneira genérica, Frank afirma que a dislexia é um problema neurológico relacionado à linguagem e à leitura. As habilidades de redação de palavras e de textos, de audição, de fala e de memória também podem sofrer impactos.
Ronald Davis, em O Dom da Dislexia (1997), afirma que a dislexia é um produto do pensamento e que os disléxicos têm uma forma especial de reagir ao sentimento de confusão. Ele acredita que essas pessoas possuem uma “conceituação não-verbal”, isto é, pensam com imagens mentais de conceitos ou idéias, e não com os sons das palavras como as pessoas que não possuem dislexia (Davis, 1994). Ele explica que para um pensador não-verbal, pensar com palavras, cujos significados não possam ser representados por imagens, como as letras, é quase impossível.
Cada vez que o disléxico vê uma palavra ou símbolo que não encontra uma imagem correspondente para o seu significado, aparece em sua mente um “branco”, e ele experimenta a sensação de confusão. Após sucessivos “brancos”, o disléxico atingirá seu limite de tolerância à confusão. Nesse momento ele ficará desorientado. A desorientação significa que a percepção dos símbolos se altera e se distorce, tornando difícil a leitura e a escrita. Segundo Davis, sempre que a desorientação ocorre, todos os sentidos, exceto o paladar, são alterados. Nesse sentido pode-se entender por que Frank, como a maioria dos autores, classifica a dislexia em três tipos: a visual, a auditiva e a combinação de ambas. A dislexia tem, então, um impacto direto na auto-estima da criança, uma vez que pode abalar o seu desempenho escolar.
Lucia Moysés, em A Auto-Estima se Constrói Passo a Passo (1995), diz que alguns autores consideram a auto-estima provavelmente o resultado, e não a causa, do desempenho escolar. Já na obra A Auto-Estima do seu Filho (2002), Dorothy Corkille Briggs explica que a coleção de autopercepções da criança aumenta de acordo com os reflexos que ela recebe de todas as atividades da qual participa, sejam escolares, recreativas, sociais ou esportivas.
O tratamento que recebe de outras pessoas, o grau de realização e de reconhecimento em todas as atividades das quais participa, são reflexos que a criança recebe a todo momento em sua vida. Esses reflexos são como flashs de si mesma que ela vai colecionando ao longo do tempo e formando a base da sua identidade, que posteriormente tornar-se-ão a sua auto-imagem ou autoconceito: “Quanto mais exata a imagem que a criança faz de si mesma, mais realisticamente ela conduz a sua vida”, detalha. Conseqüentemente, será uma pessoa mais adequada e mais provável será o seu sucesso.
Podemos concluir que o autoconceito (ou auto-imagem) é a percepção que a pessoa tem de si mesma. O autoconceito pode basear-se, de forma geral, em vários fatores: aparência física, habilidades sociais, desempenho intelectual e habilidades motoras. O sentimento de valor que acompanha essa percepção que temos de nós próprios, caracteriza a auto-estima. É a avaliação que fazemos daquilo que sabemos a nosso respeito.
Maria Cristina Urrutigaray, no livro Arteterapia: A Transformação Pessoal pelas Imagens (2003), expõe que o “fazer arte” na arteterapia pode ser utilizado como recurso pedagógico ou terapêutico. Criar envolve a criatividade, e esta pode oferecer condições para ativar aspectos afetivos e cognitivos; criar, abordando esses critérios, pode propiciar um desbloqueio da inibição da produção, demonstrando uma liberdade afetiva e emocional, além de proporcionar segurança para enfrentar os desafios que a vida nos impõe. As vivências ainda possibilitam tanto a estruturação psíquica de aceitação das diferenças individuais quanto a integração da individualidade
A arteterapia está fundamentada em várias linhas teóricas da psicologia. Refiro-me, aqui, única e exclusivamente à abordagem junguiana, que favorece o caminho da individuação. “Por ele entendemos o processo de construção do indivíduo, conseguido através da expressão de impulsos inconscientes, que, ao serem objetivados, tornam-se passíveis de serem confrontados” (Urrutigaray, 2004).
Ainda segundo Urrutigaray, a arteterapia consiste em tornar uma imagem imaginada transferida em imagem criada, através de materiais plásticos, que emprestam sua maleabilidade e flexibilidade para expressar seus conteúdos íntimos. A arteterapia alcança sua função terapêutica ao permitir a passagem de um conteúdo não assimilado, transformado em outro, conscientizado ou assimilado.
As autoras da obra Criatividade em Arteterapia: Pintando, Desenhando, Recortando, Colando e Dobrando (2005), Edna Chagas Christo e Graça Maria Dias Silva falam da importância de o ser humano encontrar-se, pois, para sair da existência comandada por padrões préestabelecidos que muitas vezes nos levam a pensar serem nossos, necessitamos de um facilitador. Nesse sentido, a arteterapia dá sua contribuição.
Muitas vezes, a criança disléxica freqüenta a psicopedagoga, a fonoaudióloga, entre outros profissionais, e, ainda assim, não consegue ter um desempenho escolar satisfatório. Isso acontece porque ela precisa que o seu aspecto emocional também seja assistido de forma efetiva e atuante. Pintando, recortando, construindo, colando e desenhando, a criança está olhando para dentro de si. Com o autoconceito mais exato de si, sua autoconfiança permitirá que ela lide melhor com um fracasso ou outro que poderá ocorrer na sala de aula.
Ao longo do processo arteterapêutico, é comum que a criança manifeste seus sentimentos negativos acerca do conceito de si mesma. Entrar em contato com esses sentimentos pouco nobres propicia familiarizar-se com eles e, aos poucos, a criança constrói um conceito de si mesma partindo de seu interior e do reconhecimento de suas capacidades e potenciais.
Nesse processo, a criança tem a oportunidade de encarar a dislexia com mais coragem, por meio de atividades artísticas capazes de traduzir plasticamente os seus sentimentos internos. Todo o medo que a criança sente em relação à leitura e à escrita vai se diluindo, ao mesmo tempo em que é fortalecida a sua auto-estima. Claro que o erro continua existindo, por vez ou outra, mas a visão da criança em relação ao ato de errar muda.
Bibliografia:
BERNARDO, Patrícia Pinna. A “Doce Medicina”: Trabalhando com a Sabedoria da Psique na Criação de um Conhecimento Integrado ao Autoconhecimento. São Paulo, tese de doutorado, USP, 2001.
________________________. “Arteterapia: A Arte a Serviço da Vida e da Cura de Todas as Nossas Relações”, pp.73-116, in: ARCURI, I . (org.) Arteterapia – Um Novo Campo do Conhecimento. São Paulo: Vetor, 2006.
________________________ . “Oficinas de Criatividade: Desvelando Cosmogonias Possíveis”, in: Revista Científica de Arteterapia Cores da Vida, vol.2, artigo especial, pp.8- 23 (in: www.brasilcentralarteterapia.cjb.net, acessado em 31/05/2006).
BRIGGS, Dorothy Corkille. A Auto-Estima do seu Filho. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
CHRISTO, Edna Chagas e SILVA, Graça Maria Dias. Criatividade em Arteterapia : Pintando , Desenhando, Recortando, Colando e Dobrando. 2ª ed. – Rio de Janeiro: Wak Editora, 2005.
DAVIS, Ronald. O Dom da Dislexia. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
FRANK, Robert. A Vida Secreta da Criança com Dislexia. São Paulo: M. Books do Brasil, 2003.
MORAIS, Antônio Manuel Pamplona. Distúrbios de Aprendizagem: Uma Abordagem Psicopedagógica. São Paulo: Edicon, 1997.
MOYSÉS, Lucia. A Auto-Estima se Constrói Passo a Passo. 5ª ed. São Paulo: Papirus, 2005.
URRUTIGARAY, Maria Cristina. Arteterapia: A Transformação Pessoal pelas Imagens. Rio de Janeiro: Wak, 2003.
* Thais Helena de Moraes Gomes é graduada em Artes Plásticas pela FAAP e em Pedagogia pela Faculdade Campos Salles. Musicista, formada em piano e pós-graduada em Arteterapia pela UNIP. Professora de Artes e Música da Educação Infantil do Colégio Objetivo.
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