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Ecologia profunda ou ambientalismo superficial?
(Venha comigo, no caminho eu explico).

* Por: Tom Carvalho

Uma mulher de meia-idade, com cabelos despenteados, rosto franzido e olhos inchados não consegue esconder a noite mal dormida e abruptamente interrompida pelo despertador. Olha o relógio, acende um cigarro e abre uns dois dedos do vidro do carro, enquanto espera pela luz verde do semáforo. Não gosta de correr, e por isso trafega pela pista da direita, onde, invariavelmente, é agredida por aqueles que se consideram obstaculizados por ela. Nesta manhã não foi diferente. Um senhor de cabelos grisalhos e expressão de raiva buzinou prolongadamente e, irritado, saiu, de repente, de sua traseira e gritou:
– Sai da frente, tartaruga paralítica!

Como se não bastasse, o individuo deu-lhe uma “fechada”, obrigando-a a frear bruscamente. Nesse momento, ela observou um rosto conhecido no banco de trás do veículo do agressor. Era um de seus alunos que, como milhares de jovens desnorteados, insatisfeitos e sem saber exatamente por que o fazem, dirigem-se para as suas escolas, alcançam suas salas, tossem , espirram, assoam o nariz em pedaços de papel higiênico, enquanto à espera da primeira aula, apóiam os pés sobre as carteiras, acionam os pocket pcs e smartphones, ativam a função  mp3, conectam-se por roteadores wi-fi e trocam músicas, vídeos e fotos por meio de  transmissão estéreo bluetooth e em alta velocidade.

Entra na sala a professora: corre os olhos pelas fileiras, observando os rostos apáticos, alguns tristes e, entre bocejos e espirros, encontra aquele jovem que vira há pouco no trânsito. Os olhos se cruzam; um olhar dissimulado, envergonhado. O tema da aula é meio ambiente, abordando os efeitos do aquecimento global, da destruição do ozônio estratosférico, da produção de alimentos transgênicos... Os alunos abrem os cadernos de atividades, relacionam as colunas da direita com as da esquerda, assinalam com um x a alternativa correta, sublinham no texto o que é importante para a prova, tossem e espirram mais um pouco até que soa o sinal.

Ecologia profunda ou ambientalismo superficial?

A nova visão da realidade baseia-se na consciência da inter-relação e interdependência essenciais de todos os fenômenos – físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Sendo assim, não podemos reduzir a questão ambiental aos problemas específicos do meio ambiente físico. Se acham que vão resolver os graves problemas relacionados aos impactos antrópicos nos ecossistemas terrestres através de análises técnicas do “efeito estufa”, da destruição da camada de ozônio ou qualquer outro aspecto que contemple apenas e tão somente o meio ambiente físico, podem continuar dando o prêmio Nobel para cientistas do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) e personalidades como o ex-quase presidente Al Gore, pois a entrega do prêmio, ainda assim, ocorrerá num cenário de cataclismos apocalípticos.

Os enormes problemas ambientais começam, antes de tudo, no trânsito caótico, na professora angustiada e no jovem desorientado. Uma articulação dos registros ecológicos das relações do homem com o meio, do homem com os outros homens e do homem consigo mesmo, indicando linhas de recomposição das práticas humanas que considerem a relação homem-natureza intermediada pelas laminagens de subjetividade. Portanto não falamos de uma ecologia, mas de três: física, social e mental, integradas pelo paradigma da “ecosofia” criado pelo psicanalista francês Félix Guattari no seu livro As três ecologias **.

As vertiginosas transformações técnico-científicas misturam-se aos desequilíbrios ecológicos, à progressiva deterioração das redes de parentesco e das relações de vizinhança. Nossa vida doméstica, conjugal e familiar está sendo gangrenada por uma padronização de comportamentos imposta pelo consumo da mídia. Pobreza extrema, violência, drogas, crise econômica e impactos ambientais, em última análise, fazem parte da mesma problemática e a resolução desses problemas só poderá ocorrer dentro de uma abordagem ecosófica e da ecologia profunda. Esta é uma ecologia que vai além do factual e do científico, caminhando para um nível mais profundo de consciência ecológica.

A questão ambiental ficou de certa forma banalizada ao se adotar uma visão antropocêntrica, em que o homem é o centro de tudo, analisado como um elemento à parte da natureza. “A chamada ecologia profunda coloca a vida – toda e qualquer forma de vida – como ponto central de qualquer estudo. Esse conceito se opõe ao ambientalismo superficial, que se aproxima mais do discurso panfletário, voltado para interesses particulares.”

Essa nova forma de ver a ecologia começa na nossa conduta ética pessoal e na relação de respeito e harmonia entre os indivíduos, para então se estender ao meio ambiente propriamente dito.

Embora eu seja hoje um professor geógrafo que se especializou em educação e meio ambiente, estou muito distante de ser um mestre, na concepção da filosofia hindu, acharya: aquele que ensina pelo exemplo. Falo da influência negativa da mídia sobre as crianças, mas tenho vários aparelhos em casa e não consigo evitar que os meus filhos assistam algumas horas diárias de programação tóxica e poluição publicitária. Sapatos e cintos de couro, alta quilometragem solitária em veículo, às vezes, desregulado. Baby beef no almoço...

A esposa reclama, com razão, porque não divido adequadamente as tarefas domésticas... Tenho meu lado consumista, práticas agressivas contra minha própria saúde e sou consciente do meu papel na deterioração do planeta. Um professor que ensine temas transversais e fale de ecologia profunda não tem de ser um santo, eu sei, mas precisa começar por questionar-se sobre muitas idéias, preconceitos, atitudes e comportamentos diários, pois, sem perceber, “ensina sem ensinar” nas suas mínimas condutas em aula. 

Se ainda achamos que vamos evitar a destruição do planeta com aulinhas de ecologia, distribuição de mudas de árvores, créditos de carbono, biodiesel, etanol e reciclagem, preparemo-nos para uma “missão impossível” e não contem com este artigo, pois ele se autodestruirá em cinco segundos.

Meu nome é Tom Carvalho e não Tom Cruise, que pena!

Bibliografia:

** GUATTARI, Félix. As três ecologias. Campinas, Papirus, 1990.

CARVALHO JÚNIOR, Antonio Ferreira de. Ecologia profunda ou ambientalismo superficial? O conceito de ecologia e a questão ambiental junto aos estudantes. ISBN: 85-7473-145-5, Brochura, Arte & Ciência Editora, 2004.

Clique aqui para ver Ecologia Profunda ou Ambientalismo Superficial?, de ANTONIO FERREIRA DE CARVALHO JR. no Submarino.com.br
 
CAMARGO, L. O. DE L. (org.). Perspectivas e resultados de pesquisa em educação ambiental.  São Paulo, Arte & Ciência Editora, 1999.

Clique aqui para ver Perspectivas e Resultados de Pesquisa em Educação Ambiental, de LUIZ OCTAVIO DE LIMA CAMARGO no Submarino.com.br

Tom Carvalho é mestre em Educação Ambiental, geógrafo formado pela Universidade de São Paulo. Palestrante e professor do Curso e do Colégio Objetivo. Autor do livro Ecologia profunda ou ambientalismo superficial? e co-autor do livro Perspectivas e resultados de pesquisa em educação ambiental, organizado por Luiz Octávio de Lima Camargo.

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