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A História e a construção das habilidades de leitura e escrita
Por: Sonia de Deus Rodrigues Bercito

A História como disciplina curricular apresenta peculiaridades no tocante ao desenvolvimento da leitura e da escrita, processo em andamento ao longo de todo o Ensino Fundamental. Entretanto, nas séries finais desse nível de ensino, nem sempre isso é suficientemente considerado. Ainda que a exposição dialogada feita pelo professor ou a utilização dos recursos audiovisuais atualmente disponíveis sejam estratégias importantes para a construção do conhecimento histórico em ambiente escolar, a desenvoltura na leitura e na escrita continua sendo requisito fundamental para o estudo da História nas escolas.

Em que pesem as diferenças regionais que distinguem o modo de vida da população mundial e as profundas desigualdades existentes, jamais se teve tanto contato com textos escritos. O acesso à linguagem escrita tem sido ampliado pelo conjunto social como nunca ocorreu na história humana. No entanto, a utilização da escrita atualmente não ocorre como em outros tempos. Esta forma de comunicação, de expressão e de transmissão cultural tem se modificado numa sociedade que cada vez mais se utiliza de meios audiovisuais. Além disso, observa-se uma tendência de simplificação dos textos em prol de sua compreensão mais ampla, num provável efeito das necessidades de comunicação para grandes públicos, seja em textos jornalísticos, publicitários ou acadêmicos. E, ainda, as mensagens via Internet se consolidam como importante forma de comunicação, estabelecendo novos padrões de escrita em consonância com o ritmo veloz desse meio.  Tal movimento atinge os jovens, cujas práticas de leitura e de escrita vêm se tornando cada vez mais caracterizadas por uma certa ligeireza e pela fragmentação. Como nos lembra Fernando Seffner,
“Hoje, a leitura do livro não tem mais o monopólio do acesso à informação, e as práticas de leitura são em geral extensivas, mais utilitárias e menos literárias. Hoje, lemos para trabalhar, para nos informar, para nos orientar, etc. Se por um lado temos essa prática extensiva e cotidiana de leitura, realizada por um grande número de indivíduos na sociedade, temos dificuldades na leitura contínua, intensiva, leitura de um livro do início ao fim, leitura de coleções e de grandes obras. A leitura dos jovens se inscreve na descontinuidade e na fragmentação: leitura da resposta certa, do aviso no quadro, do questionário, do bilhete do professor, da propaganda, do cartaz, etc. Qual jovem lê um livro do início ao fim?” (SEFFNER, 2000:108)

Os livros didáticos, nesse contexto, ocupam posição de destaque no acesso à leitura em âmbito escolar. Entretanto, apresentam especificidades que cumpre destacar. Consagrados amplamente como principais recursos da aprendizagem, funcionam como organizadores dos conteúdos a serem trabalhados. Dessa forma, precisam ser divididos em diferentes partes, unidades e capítulos para alcançarem sua finalidade didática e serem usados como instrumentos de trabalho pelos alunos. Visando contemplar um vasto conteúdo, utilizam fragmentos de textos na impossibilidade de trabalhar com obras completas. Para se aproximarem do universo dos alunos, são diagramados de forma a se parecerem com uma página da Internet, utilizando símbolos e muitas imagens, além de introduzir recursos dali originários, tais como os links e os hipertextos.

Por tudo isso, os livros didáticos* para serem eficientes devem ser tomados como instrumentos de trabalho escolar e não como a única fonte de informações oferecida aos alunos. Devem ser construídos como via de acesso para outras fontes, estimulando e orientando os alunos a explorá-las, ampliando suas perspectivas. Não se pode esperar que ocupem o lugar dos textos informativos mais longos. Sua finalidade deve ser outra: preparar os alunos para que eles possam gerir as informações obtidas na escola, ou fora dela, de forma que elas se tornem conhecimento. E, no caso da História, para se construir conhecimento deve-se considerar a importância da leitura e da escrita.

Trabalhando com a leitura e a escrita nas aulas de História

A partir das atividades cotidianas em sala de aula é que as habilidades de leitura e escrita devem ser inicialmente desenvolvidas. O livro didático escolhido deve permitir e incentivar esse trabalho. Deve-se ressaltar que a construção da linguagem escrita pressupõe também o exercício da oralidade. É necessário que o professor solicite seus alunos nesse sentido, criando atividades que utilizem habilidades como narrar, relatar, expor, descrever ações e argumentar.

* Neste texto utilizamos o conceito de livro didático num sentido amplo, que inclui os livros de atividades utilizados pelos sistemas de ensino, tais como o Sistema Objetivo de Ensino.

Também a prática da leitura em sala – em voz alta ou silenciosa – deve ser estimulada, podendo ser o ponto de partida da aula ou seu fechamento. As tarefas de casa devem ser pensadas de forma a exigir escritas elaboradas, no limite das possibilidades dos alunos.  

O próprio livro didático de História deve ser construído de forma a oferecer ao aluno meios para que ele possa exercitar diferentes tipos de leitura e de compreensão de textos. Sua concepção deve levar em consideração os avanços da discussão historiográfica que podem ser aproveitados com a finalidade de incrementar as oportunidades dos alunos exercitarem a leitura e a escrita. Os questionamentos sobre a inexistência de uma única verdade histórica e as discussões sobre objetividade versus subjetividade na produção do conhecimento histórico exigem que no livro didático haja a presença de diferentes discursos. O texto do autor não pode ser o único a constar do livro didático, pois isso contribuiria para reforçar a existência de uma visão unívoca do processo histórico. É importante que livro didático traga textos de leitura complementar, de outros autores, para dialogar com o texto base.

É preciso que o aluno se acostume a reconhecer pontos de vista às vezes divergentes sobre os assuntos tratados, percebendo a possibilidade da existência de diferentes visões sobre o passado, as quais podem ser excludentes, ou não. Valendo-se de textos diversificados, os alunos podem ser solicitados a fazer sínteses, comparações, análises críticas e assumir posicionamentos exercitando sua capacidade de argumentação. Cumpre lembrar que o reconhecimento da existência de um autor e de um destinatário deve ser enfatizada tanto na análise do texto complementar quanto na do documento.

É desejável, também, que os alunos sejam levados a experimentar o ofício de historiador de maneira a vivenciar o conhecimento do passado como uma construção ao mesmo tempo individual e coletiva. As análises de documentos são fundamentais para isso e devem estar previstas. Não basta que o documento figure como comprovação do texto do livro didático confirmando o que este diz. Ao contrário, deve se justapor ao livro oferecendo ao aluno a oportunidade de ele próprio construir uma interpretação válida sobre o passado. Identificar o autor do documento e suas intenções, perceber os não-ditos, verificar a quem ele se dirige, relacioná-lo a conhecimentos já disponíveis sobre o período de sua produção, destacar informações sobre os hábitos e acontecimentos abordados e resumi-las são algumas das possibilidades.

 Uma boa maneira de se trabalhar a narração e a descrição pode ser solicitar ao aluno que se imagine vivendo em uma determinada época ou situação específica e que de lá escreva uma carta para um amigo relatando o que vê ou como se deu o acontecimento. As crônicas podem surgir em exercício semelhante ou mesmo em simulações de jornais de época.

Há ainda outros recursos igualmente válidos, tais como resumos, resenhas críticas e relatórios, que devem acompanhar o estudo dos assuntos tratados.
Por fim, a dramatização, além de ser uma estratégia que desperta o interesse dos alunos, na medida em que oferece estímulo para a expressão criativa, é também uma possibilidade de utilização da linguagem poética a serviço da compreensão do processo histórico, por meio da criação de personagens e diálogos, bem como do exercício da narração e da descrição.

Referências bibliográficas:
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VEYNE, Paul. Como se escreve a história. Lisboa: Edições 70, 1983.

Sonia de Deus Rodrigues Bercito é doutora em História pela FFLCH-USP e coordenadora-geral do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental do Centro Educacional Objetivo. É autora, juntamente com Ana Maria Marino, dos Livros Integrados de História do Ensino Fundamental do 6º ao 9º ano do Centro Educacional Objetivo.

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