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Avaliando e identificando as altas habilidades por um olhar diferenciado
Por: Christianne Vita

Os alunos portadores de altas habilidades/superdotação são indivíduos que precisam de um espaço educacional diferenciado e desafiador para que possam desenvolver seu potencial, pois são diferentes em relação aos alunos de sua idade. Para isso, precisam ser criadas condições educacionais apropriadas que atendam às suas necessidades acadêmicas, intelectuais, emocionais e sociais, de acordo com suas potencialidades.

Esses alunos apresentam um desempenho diferenciado e elevado potencial em qualquer dos seguintes aspectos, isolados ou combinados: capacidade intelectual, aptidão acadêmica específica, pensamento criativo ou produtivo, capacidade de liderança, talento para as artes, capacidade psicomotora, persistência na resolução de problemas, atitude curiosa e questionadora.

Segundo Howard Gardner, o ser humano é dotado de inteligências múltiplas que incluem as dimensões verbal ou lingüística, lógico-matemática, espacial, musical, cinestésico-corporal e motora (presente no atleta e no artista), naturalista (percepção da natureza de maneira integral e empatia com animais e plantas), pictórica (presente nos artistas que produzem desenhos, obras de arte), além das inteligências interpessoal (revelada através do bom relacionamento com os outros) e intrapessoal (presente em indivíduos que administram bem os sentimentos e emoções). O aluno com altas habilidades pode vir a se destacar em uma ou mais dessas dimensões.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 9.394/1996, garante que os alunos com altas habilidades/superdotação devem receber atendimento que valorize e respeite suas necessidades educacionais, diferenciadas em relação a talentos, aptidões e interesse.

O aluno superdotado precisa ser identificado para que possa ser criado um trabalho de intervenção adequado, com ambiente estimulador, gerando motivação; bem como uma proposta pedagógica que atenda às suas necessidades e desenvolva seu potencial. Esse trabalho deve envolver o aluno, a escola, o professor, a família e a sociedade.

Como avaliar e identificar talentos?

Um dos processos é a avaliação pelo psicodiagnóstico interventivo, que visa à descrição e à compreensão mais profunda e completa possível da personalidade total da criança. Por meio dele serão avaliados e observados os aspectos intelectuais e emocionais da criança. Esse processo é realizado pelo profissional psicólogo, que vai pontuando a maneira como a criança está se apresentando ao mundo. A família também pode ajudar na identificação, trazendo informações, como, por exemplo, em qual(is) área(s) o aluno se destaca e demonstra interesse em estudar.

Muito importante é também a avaliação que pode ser feita através de observações diretas do professor na sala de aula, visto que é ele quem se relaciona direta e diariamente com a criança. O mestre precisa ser orientado e preparado para tal observação e identificação do aluno.

Podemos sugerir alguns aspectos que podem ser mencionados para auxiliar o professor atento a identificar talentos em sala de aula. A partir da observação, o professor poderá fazer uma ficha para registrar quais características o aluno apresenta, segundo o perfil encontrado para a criança com altas habilidades. O professor pode, assim, indicar, por exemplo, qual é o aluno mais criativo da turma, o aluno com maior capacidade de liderança, o aluno com vocabulário diferenciado, o aluno com pensamento crítico mais desenvolvido, etc.

Classifico a seguir, como guia de orientação, indicadores que caracterizam os alunos com altas habilidades. Ressalto, ainda, que o aluno, para ser considerado portador de altas habilidades, não precisa exibir todas essas características, e sim algumas delas combinadas.

1 - Habilidade intelectual: alunos que apresentam boa memória, aprendem e fixam o conteúdo com facilidade, têm habilidade para lidar com a abstração, bem como apresentam vocabulário avançado para a idade, facilidade para perceber relações de causa e efeito, habilidade para fazer observações perspicazes e sutis, grande bagagem de informações sobre um tópico específico ou sobre uma variedade de tópicos, habilidade para transferir aprendizagens de uma situação para outra e habilidade para fazer generalizações sobre eventos, pessoas e coisas.
2 - Habilidade verbal ou lingüística: alunos que se destacam nas áreas de linguagem, comunicação e expressão. Têm capacidade para organizar o pensamento com palavras, usar a linguagem para expressar e avaliar significados complexos, seja oralmente ou por escrito. A linguagem pode ser usada para convencer os outros e é empregada para lembrar informações e para informar. Os alunos mostram-se mais comunicativos e falantes.
3 - Habilidade lógico-matemática e científica: alunos que se destacam nas áreas de Matemática e Ciências. Apresentam capacidade para usar e avaliar relações abstratas, calcular, quantificar, considerar proposições e hipóteses e realizar operações matemáticas complexas. Possuem, também, sensibilidade a padrões de relacionamento lógicos, funções, afirmações e proposições.
4 - Criatividade relacionada ao senso de humor, pensamento imaginativo, atitude não conformista, pensamento divergente, espírito de aventura, disposição para correr riscos, habilidade para adaptar, melhorar ou modificar idéias, habilidade para produzir respostas incomuns, únicas ou inteligentes, disposição para fantasiar, brincar e manipular idéias, habilidade para gerar um grande número de idéias ou soluções para problemas/questões. Os alunos apresentam, também, talento nas áreas artísticas.
5 - Motivação: alunos que se mostram interessados, curiosos e perguntadores. São persistentes quando buscam atingir um objetivo ou quando realizam tarefas, têm interesse constante por certos tópicos ou problemas, são independentes (procuram pouca orientação do professor), têm obstinação em procurar informações sobre tópicos de seu interesse, são comprometidos com projetos de longa duração, têm preferência por situações nas quais possam ter responsabilidade pessoal sobre o produto de seus esforços, demonstram pouca necessidade de motivação externa para realizar trabalhos que inicialmente se mostram estimulantes.
6 - Liderança: alunos que têm autoconfiança quando interagem com colegas de sua idade, apresentam habilidade para articular idéias e para comunicar-se bem com os outros, têm habilidade para organizar coisas, pessoas e situações, tendem a dirigir atividades quando estão envolvidos com outras pessoas, demonstram comportamento cooperativo ao trabalhar com os outros, têm tendência a serem respeitados pelos colegas, têm postura questionadora.
7 - Habilidade psicomotora: alunos que se destacam nas atividades físicas e nos esportes e apresentam habilidades manuais e motoras. São capazes de usar todo o corpo, ou partes dele, para resolver problemas, criar produtos, expressar idéias e sentimentos (como faz o ator, o mímico, o atleta, o dançarino, por exemplo).
8 - Habilidade musical: alunos que têm potencial para criar; comunicar e compreender significados compostos por sons. Inclui alunos que têm capacidade para o canto, melodia, tom, ritmo e timbre.

O professor tem a possibilidade, também, de observar o interesse dos alunos por hobbies, hábitos de leitura e atividades extracurriculares que optam por fazer.

No contexto da sala de aula não parece fácil distinguir, em situações normais, um aluno curioso, outro perguntador e outro desinteressado (não necessariamente atrasado pedagogicamente), pois esses atributos aparecem combinados nas diversas situações, e não isoladamente no aluno.

Desta maneira, o aluno entediado e desinteressado na sala de aula pode ser uma criança com alto potencial intelectual reagindo contra a rotina e o tédio escolar, sem estímulos e desafios. O aluno com postura arrogante pode mostrar-se assim devido ao vasto conhecimento que possui de muitos tópicos, além de poder corrigir colegas e adultos quando percebe que estão dando informações incorretas. Alunos solitários e ignorados pelos colegas podem ser assim por apresentarem maior capacidade de pensamento abstrato e de concentração, que nem sempre são compartilhadas pelo grupo. Há também os mais levados e arteiros, ou até indisciplinados, os quais podem estar expressando um aspecto da vivacidade intelectual que não encontra outro canal de expressão na escola.

Esses comportamentos negativos podem ocorrer devido às necessidades intelectuais e emocionais do aluno com altas habilidades, as quais não estão sendo devidamente atendidas na escola. Por isso, é importante perceber que o cerne desses problemas pode ser uma frustração intelectual e não um problema emocional.

O professor que atende crianças da Educação Infantil até o 5º ano do Ensino Fundamental pode fazer esse trabalho de observação tendo como foco o aluno como um todo, já que pode perceber como o aluno se apresenta nas diferentes áreas e atividades. Por sua vez, o professor que leciona para turmas do 6º ano do Ensino Fundamental 2 até o Ensino Médio tem uma compreensão do aluno a partir do conteúdo de sua área. Por isso, é importante que os professores destas turmas troquem informações sobre como o aluno se apresenta nas diferentes áreas e como seu desempenho é superior em relação ao grupo. Assim, a observação e a indicação do aluno devem ser realizadas a partir de um conselho de classe.

Ao avaliarmos a inteligência, trabalhamos num processo amplo e profundo, pois a inteligência é mais do que podemos medir com testes de desempenho psicométrico-cognitivo. Daí a importância de um processo que envolve o aluno, a escola, o professor, a família e a sociedade.

Bibliografia
Antunes, Celso. Jogos para estimulação das múltiplas inteligências. Petrópolis: Vozes, 1998.
Fleith, Denise de Souza (org.) A construção de práticas educacionais para alunos com altas habilidades/superdotação. Vol. 1. Orientação a professores. Brasília/DF: Ministério da Educação/Secretaria da Educação Especial, 2007.
Guenther, Zenita Cunha. Desenvolver capacidades e talentos: um conceito de inclusão. Petrópolis: Vozes, 2000.
Wechsler, David. Wisc III: escala de inteligência para crianças: manual (3ª ed.) Adaptação e padronização de uma amostra brasileira, por Vera Lúcia Marques de Figueiredo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.

Christianne Vita é graduada pela Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP) e pós-graduada em Psicologia Clínica pela Universidade Paulista (UNIP). É psicóloga clínica, professora e psicóloga do Programa Objetivo de Incentivo ao Talento (Poit) do Colégio Objetivo Júnior.
E-mail: chrisvita@uol.com.br

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