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A eficácia pedagógica do uso de letras de MPB
no ensino de Literatura

Nelson Antônio Dutra Rodrigues

Um obstáculo ao ensino de Literatura é a distância entre a riqueza dos registros lingüísticos das obras literárias e o código do estudante, cujo repertório provém, geralmente, dos meios de comunicação de massa e da oralidade, familiar e social. Cabe ao professor a tarefa de mostrar a atualidade da obra, intermediar códigos e agregar novos registros ao do estudante, ou, nas palavras de Bakhtin: “a palavra dirige-se a um interlocutor: ela é função da pessoa desse interlocutor: variará se se tratar de uma pessoa do mesmo grupo social ou não, se esta for inferior ou superior na hierarquia social, se estiver ligada ao locutor por laços mais ou menos estreitos (pai, mãe, marido etc.). Não pode haver interlocutor abstrato; não teríamos linguagem comum com tal interlocutor, nem no sentido próprio nem no sentido figurado. Se algumas vezes temos a pretensão de pensar exprimir-nos urbi et orbi, na realidade é claro que vemos ‘a cidade e o mundo’ através do prisma do meio social concreto que nos engloba”.

Uma das estratégias de maior eficácia no ensino de Literatura, considerando-se tanto o ponto de vista da motivação como o da aprendizagem de um código mais requintado, é a abordagem intertextual por meio do uso de letras de MPB, comparando-as com poemas da Literatura Brasileira e da Literatura Portuguesa. Essa comparação, além de apresentar um código mais acessível, que faz ponte com o código literário, já quebra, de início, uma certa rejeição que se tem pela leitura e pelo estudo, principalmente, de poesia.

Desde o lançamento do primeiro disco gravado no Brasil, Isto é bom (1902),de Xisto Bahia, houve inúmeros compositores de letras de MPB que se destacaram pela elaboração lingüística, podendo ser citados, entre outros, Noel Rosa, Cartola, João de Barro e Catulo da Paixão Cearense, como fundadores de uma tradição de letras com grande qualidade, o que é algo recorrente na trajetória da MPB.

A partir do advento da Bossa Nova, em 1958, com seu estilo predominantemente coloquial-irônico, sendo um de seus principais nomes o poeta Vinícius de Moraes, a MPB passou a ter letristas que liam Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, poesia concreta etc. Esses compositores, como Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Sidney Miller, entre outros, diluíam a alta cultura no formato da MPB. No mundo todo, parte da música popular dos anos 1960 e 1970 tornou-se vanguarda, como o movimento Tropicália (1968) e os álbuns “cult”, como o celebrado vinil dos Beatles, Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967).

José Miguel Wisnik afirma que “de certo modo, esse processo todo da década de 1960 acentuou o lugar original que a música popular vinha ocupando no Brasil, pela sua pertinência simultânea e contraditória a vários sistemas culturais. Meio e mensagem do Brasil, pela tessitura densa de suas ramificações e pela sua penetração social, a canção popular soletra em seu próprio corpo as linhas da cultura, numa rede complexa que envolve a tradição rural e a vanguarda, o erudito e o popular, o nacional e o estrangeiro, o artesanato e a indústria”.

Pode-se iniciar o exame das letras de MPB passíveis de serem usadas intertextualmente com os poemas dos movimentos literários tomando por objeto Teresinha, de Chico Buarque de Holanda, aproximando-a da cantiga de amigo do Trovadorismo. O eu-lírico feminino, o amor sensual, a origem popular e a estrutura paralelística são recorrentes tanto em Teresinha como nos textos do cantar de amigo. Outrossim, deve-se ressalvar que a linguagem de Teresinha, embora estabeleça intertextualidade com a cantiga de amigo medieval, não deixa de dialogar com o coloquialismo irônico do Modernismo.

Há que se frisar que esta é apenas uma possibilidade de estudo intertextual, havendo várias letras de qualidade na MPB, até mesmo do próprio Chico Buarque de Holanda, nas quais o eu-lírico feminino lamenta a ausência do amado. A audição de Teresinha eo cantar dos alunos são fatores motivacionais que atenuam a dificuldade de estudar o código medieval. Além disso, a qualidade literária do texto de Chico Buarque de Holanda vai ao encontro da finalidade da aula: o estudo da língua, o aprendizado do registro culto.

Já o amor ideal do Trovadorismo, presente na cantiga de amor, encontra forte ressonância em vários momentos da Literatura, oral e escrita, de Língua Portuguesa. Em muitas letras de MPB, como Dona, de Sá e Guarabira, Eu sonhei que tu estavas tão linda, de Lamartine Babo e Francisco Matoso, e Rosa, de Otávio de Sousa e Pixinguinha, está presente o amor ideal, platônico, inacessível às solicitações do poeta, que, como um vassalo, se submete à dama. O amor impossível é o tema, até hoje, mais recorrente nas letras de MPB.

As provas do Enem, os vestibulares da UFSCar e, principalmente, os da Unesp apresentam recorrentemente questões intertextuais que envolvem MPB e Literatura. Houve um ano em que o vestibular da UFSCar aproximou a poesia de Tomás Antônio Gonzaga (séc. XVIII), neoclássica ou árcade, à letra de Casa no Campo (1972), de Zé Rodrix, com música de Tavito. As questões pediam que o vestibulando identificasse nesses textos a linguagem simples, o tema do fugere urbem, isto é, a fuga da cidade com a conseqüente valorização da vida bucólica, campestre. Aliás, as provas do Enem e a maioria dos vestibulares apresentam questões metalingüísticas de interpretação de texto, em que são comparados vários textos literários, ou em que são confrontados textos de críticos com textos literários.

Laurent Jenny afirma que “fora da intertextualidade, a obra literária seria muito simplesmente incompreensível, tal como a palavra de uma língua ainda desconhecida (...) Face aos modelos arquetípicos, a obra literária entra sempre numa relação de realização, transformação ou transgressão. E é, em grande parte, essa relação que a define. Mesmo quando se caracteriza por não ter nenhum traço comum com os gêneros existentes, longe de negar sua permeabilidade ao contexto cultural, ela confessa-a justamente por essa negação”.

Longe da pretensão de estabelecer um modelo único, mas apenas com a intenção de indicar algumas letras de MPB viáveis, pela qualidade artística e pela repercussão na cultura brasileira, para o estudo literário, sugere-se que a abordagem da poesia lírica camoniana, especialmente o soneto, recorra à relação intertextual com o Soneto de Fidelidade, de Vinícius de Moraes, justaposto a Eu sei que vou te amar, também de Vinícius de Moraes, em parceria com Tom Jobim. As contradições do amor, ainda que sob pontos de vista diferentes, aparecem tanto no texto do poeta renascentista como no de Vinícius de Moraes. Já o estudo do estilo antitético e rebuscado do Barroco do século XVII dilui-se em muitos textos de Caetano Veloso, como, por exemplo, nas letras de Meu bem, Meu mal, Tigresa, Fora da ordem e O quereres, entre outras. Ressalte-se que Caetano Veloso se define como Barroco, tanto em entrevistas concedidas como na letra de sua canção Outras palavras:

(....)

Quase João, Gil, Ben, muito bem, mas barroco como eu
Cérebro, máquina, palavras, sentidos, corações,
Hiperestesia, Buarque, voilá, tu sais de cor
Tinjo-me romântico, mas sou vadio computador
Só que sofri tanto que grita porém daqui pra frente
Outras palavras

 (....)

As letras de Caetano Veloso são extremamente intertextuais, havendo nelas amplas possibilidades de estudos comparativos, sejam eles com o Barroco, com o Romantismo (Muito romântico) ou com o Modernismo (Escapulário, Oswald de Andrade),sem se falar na gravação da poesia concreta Pulsar, de Augusto de Campos, do poema barroco Triste Bahia, de Gregório de Matos Guerra, e da releitura de A Terceira Margem do Rio, retomando conto homônimo do modernista João Guimarães Rosa.

Um dos grandes impedimentos ao estudo da Literatura e responsável pelo afastamento irremediável entre o estudante e a leitura é a diferença do código da obra em relação àquele que o estudante domina. O papel do professor é o de mediar os códigos, agregando novos registros ao do aluno, dando-lhe competência lingüística.

Bibliografia

JENNY, Laurent. A estratégia da forma (Trad. Poétique, nº 27). Coimbra: Almedina, 1979.
WISNIK, José Miguel. Algumas questões de música e política no Brasil. In: Cultura brasileira: temas e situações (BOSI, Alfredo). São Paulo: Editora Ática, 1987.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes,1997.
SEVERIANO, Jairo; DE MELLO, Zuza Homem. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras (vols I e II). São Paulo: Editora 34, 1998.

Nelson Antônio Dutra Rodrigues é graduado em Letras Neolatinas pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH) e mestre em Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua como professor do Curso e Colégio Objetivo e é autor do livro Os estilos literários e letras de MPB (Arte & Ciência, 2003).

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