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A arte de cativar
Laboratório de Redação: uma experiência enriquecedora
Por Maria Aparecida Custódio

Montag era bombeiro. Sua função era queimar livros. Ele sentia orgulho de seu trabalho. Imaginava que os livros eram perigosos, que representavam uma  ameaça à estabilidade. Talvez Montag estivesse certo... Senão, como explicar sua repentina mudança de comportamento depois de ter cedido à curiosidade e ter aberto alguns livros para saber o que de tão grave havia neles? Como explicar que Montag passasse a procurar um esconderijo para guardar ao menos alguns dos livros que antes ele teria queimado com prazer? Como explicar que, atordoado com as descobertas que fizera, o bombeiro tenha iniciado uma temerária resistência às orientações de seu chefe, empreendendo uma busca desesperada de apoio para sua "causa perdida"?

Lamentavelmente, Montag, castigado por sua "libertação", não sobreviveu para, ele próprio, relatar as transformações que alguns poucos livros causaram em seu espírito. Mas o que sabemos é suficiente para a compreensão daquilo que Mário Quintana viria, algumas décadas mais tarde, resumir: "Os livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Os livros mudam apenas as pessoas."

Montag na verdade é o personagem protagonista do romance Fahrenheit 451, do escritor Ray Bradbury, publicado em 1953. A intenção do autor, quando decidiu escrever essa obra, foi chamar a atenção dos americanos, seus compatriotas, para um aparentemente inofensivo aparelho que se encontrava em todas as casas, entretendo crianças, adultos e idosos, a ponto de embotar-lhes os sentidos e impedi-los de perceber que estavam perdendo algo muito valioso. Tratava-se da TV. Hoje vivemos na Era da Informação, cercados por uma profusão de meios de comunicação, destacando-se a Internet: um número cada vez maior de usuários navega por suas páginas movidos pelos mais diversos interesses.

Embora alguns especialistas da área de Humanidades alertem contra os perigos do "internetês" (linguagem própria dos internautas), não se pode negar que os e-mails e blogs têm contribuído para resgatar tanto a leitura — ainda que fragmentada — quanto a escrita, se bem que deformada por abreviações e outras transgressões da variante culta da língua. Não se quer dizer com isso que a Internet representa a panacéia para os males do "analfabetismo voluntário”, decorrente do desinteresse dos estudantes pelas atividades de leitura e escrita. Tampouco é apropriado que nos limitemos a buscar "culpados" por tal desinteresse. Nosso desafio vai muito além dessa atitude conformista: consiste em alcançar a essência de nossos alunos para nela detectar suas reais motivações. É em suas motivações que iremos nos fixar.

O primeiro passo é usar de empatia. Antes, porém, perguntemo-nos: como conduzimos nossas próprias vidas? O que buscamos em nosso cotidiano? Para além das obrigações, todos ansiamos por momentos de prazer, de satisfação, de felicidade. Alguns de nós nos realizamos vendo um bom filme, outros, saboreando um delicioso prato, lendo um fascinante livro, viajando pra perto ou pra longe, dormindo, sonhando... E nossos alunos? O que os satisfaz? O que lhes dá prazer?

Deixemos as respostas prontas de lado e procedamos a uma investigação mais profunda. Isso implica uma análise de nossos métodos de ensino. Será que ainda continuamos a acreditar no terrorismo como forma de induzi-los a ler e escrever? "Se você não ler, você não vai ser nada, será um pária na sociedade; será dominado pelos que lêem." "No vestibular, quem não souber ler o enunciado das questões será certamente reprovado." Sabemos que essas "ameaças", esses "alertas" são contraproducentes. Então, pensemos no que nós, se fôssemos jovens estudantes hoje, gostaríamos de ouvir de nossos professores.

Exemplifiquemos: alguns anos atrás, uma aluna chegou à aula de Redação vestindo uma camiseta em que se lia: "Quem desperta a paixão de aprender tem paixão de ensinar". Esqueçamos por um momento as regências e pensemos na beleza dessa máxima. Se refletirmos sobre a paixão, que nos mobiliza — ou sobre sua ausência, que paralisa —, constataremos que é muito mais fácil, além de prazeroso, contagiar nossos alunos quando nós mesmos estamos entusiasmados com o objeto de nossa aula. Contar a história de um livro que lemos e que nos emocionou, levar um texto para a sala de aula e lê-lo junto com os alunos, convidando-os inclusive a participar da leitura, são iniciativas que, embora pareçam descompromissadas por não fazerem parte da "programação", têm-se mostrado surpreendentemente eficazes.

São muitos os alunos que vêm nos pedir sugestões de livros que nós, professores, já "testamos". Nessas ocasiões, recomenda-se verificar o perfil do estudante, a fim de sugerir talvez um livro de crônicas, ou de contos, quem sabe um romance de ficção. Enquanto levantamos as possibilidades, prestemos atenção em suas reações. De nada adianta termos uma lista pronta para entregar-lhes; temos de estar atentos às reais necessidades deles, àquilo que pode realmente cativá-los, e para isso precisamos aguçar nossos sentidos e desenvolver nossa sensibilidade. O que virá depois será conseqüência, não raro positiva e gratificante.

O espaço que criamos no Objetivo para promover essa interação com os alunos é o Laboratório de Redação, que, em parceria com nossas bibliotecas, visa a propiciar um agradável contato com as atividades de leitura e escrita. Em nossos encontros, abordamos diferentes gêneros textuais, consideramos as técnicas empregadas em cada modalidade e estimulamos os alunos a exercitar a habilidade de escrever tendo como referência os modelos que lhes são oferecidos. Reservamos, ainda, algumas aulas voltadas para as características dos vestibulares mais importantes do País, analisando as provas de cada universidade e preparando simulados que dêem aos alunos maior segurança em relação ao exame que farão. Entretanto, nunca perdemos de vista nosso primeiro desafio: aproximá-los da leitura de maneira que ela se integre a seus hábitos, lembrando ainda que nossa proposta é incluir, e não excluir ou substituir. Se eles já lêem ou leram gibis, contos de fadas, histórias em quadrinhos, revistas sobre esporte, música, cinema... que continuem a fazê-lo! Isso não os impede de acrescentar outras leituras ao seu universo. Eles sairão enriquecidos dessa experiência, e, diferentemente do pobre Montag, jamais serão castigados.

Maria Aparecida Custódio, graduada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), é professora do Laboratório de Redação do Curso e Colégio Objetivo.

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