A contribuição das artes visuais e do movimento
para o desenvolvimento do grafismo
*Por Grace Ribeiro
Todas as linguagens têm um sistema próprio de organização. Por meio da linguagem visual, com formas, linhas, dimensões, proporções, detalhes, cores, textura e outras características observadas nas obras de artes e no mundo, a criança pode desenvolver o seu repertório imagético.
Ela deve experimentar, ver, cheirar e tocar uma grande variedade de objetos e materiais artísticos, enriquecendo assim sua expressão criativa e treinando sua alfabetização visual. Isso a capacita a olhar, ver, selecionar, avaliar, registrar, corrigir e expressar suas experiências.
A criança manifesta sua arte de forma espontânea, imaginativa, simbólica e associativa, e isso ocorre por intermédio da manipulação, da criação, da fabricação ou da produção de objetos de arte.
As atividades artísticas têm como objetivo desenvolver a percepção do próprio corpo e do mundo ao seu redor, bem como ampliar a linguagem do gesto e do movimento, estimular a expressão e a comunicação por meio das artes, utilizar as linguagens visuais bidimensionais e tridimensionais, explorar os mais diversos materiais para a construção de novos objetos, desenvolver a leitura da imagem a partir das observações de obras de arte e de produções infantis, e ampliar o repertório imagético a partir de manifestações artísticas.
O desenvolvimento da capacidade artística infantil é fundamentado por três eixos: o fazer artístico, em que a criança se expressa e se comunica através da produção e das práticas artísticas; a apreciação, ou seja, a percepção do objeto, articulando-o tanto aos elementos da linguagem visual quanto aos materiais e suportes utilizados; e a reflexão, um pensar sobre todos os conteúdos do objeto artístico, a partir de interferências feitas pelo professor e do contato da criança com obras de artistas e com suas próprias produções.
Ao desenvolver os aspectos viso-motor, espacial e temporal em suas produções artísticas, o aluno amadurece sua grafia, o que influencia o desenvolvimento da leitura e da escrita.
Grafismo infantil
A evolução do desenho revela o processo de desenvolvimento e este progride de modo a caracterizar a maneira da criança situar-se no mundo.
Segundo Piaget, o grafismo infantil está dividido em etapas. Inicialmente, predomina-se a ação nas relações da criança com o objeto. É o período sensório-motor, que se estende até os dezoito meses, aproximadamente. Na fase seguinte, a ação é substituída pela representação; temos, então, os primeiros rabiscos.
A garatuja (rabisco) faz parte da fase sensório-motora (0 a 2 anos) e de parte da fase pré-operacional (2 a 7 anos). Nessa etapa, ao garatujar a criança demonstra extremo prazer em criar marcas nas quais a figura humana é inexistente ou aparece de maneira imaginária. A cor, por sua vez, tem papel secundário. A garatuja pode ser desordenada, com movimentos amplos e desarranjados, ou ordenada, com movimentos longitudinais e circulares, revelando a coordenação viso-motora. Quando é ordenada, há interesse pelas formas (diagrama) e a figura humana pode ocorrer de modo imaginário.
O pré-esquematismo pertence à fase pré-operatória, na qual se descobre a relação entre desenho, pensamento e realidade. Aqui, os desenhos são dispersos no espaço e não se relacionam entre si. Surgem as primeiras relações espaciais, fruto de vínculos emocionais, e as figuras humanas. O desenho torna-se a procura de um conceito que depende do conhecimento ativo da criança. Os símbolos começam a mudar e a utilização das cores não segue, necessariamente, uma relação com a realidade (isso varia conforme o interesse emocional).
O esquematismo envolve as operações concretas realizadas dos 7 aos 10 anos. Nessa fase já se apresentam os esquemas representativos e a afirmação de si mediante repetição flexível do esquema. As novas experiências são expressas pelo desvio do esquema e desenvolve-se o primeiro conceito de espaço: a linha de base. Na figura humana aparecem desvios como exagero, negligência, omissão ou mudança de símbolo. Nessa fase há a descoberta das relações entre cor e objeto.
Podemos dizer que o desenvolvimento do grafismo é a revelação da natureza emocional e psíquica da criança. É por meio da linguagem gráfica que ela registra suas idéias, vontades e fantasias. Observando a evolução do grafismo podemos acompanhar as mudanças e o aprimoramento dos desenhos infantis.
A psicomotricidade nas aulas de Artes Visuais
Desde a infância, o ser humano coloca em prática seu sentido estético ao criar objetos artísticos, reconhecendo emocional e cognitivamente suas idéias e invenções. A arte depende da coordenação perfeita de talentos (sensoriais ou motores), idéias e imaginação.
Quando a criança executa sua obra de arte, ela necessita provocar movimentos (globais ou finos), pensar, criar idéias e colocar suas emoções naquilo que cria. Com isso, o aluno pode desenvolver habilidades motoras, cognitivas e sócio-afetivas durante as aulas de artes, partindo de uma proposta psicomotora. As aulas visam educar o movimento corporal e, ao mesmo tempo, estimular o uso das funções intelectuais, e são fundamentadas em três pilares básicos: o movimento, o intelecto e o afeto.
Para o desenvolvimento psicomotor da criança deve-se levar em conta duas abordagens:
a) psicomotricidade funcional, ligada ao desenvolvimento motor do corpo, à lateralidade, à estruturação e orientação espacial, à orientação temporal e à pré-escrita.
b) psicomotricidade relacional, voltada ao desenvolvimento da mente, de modo a facilitar a comunicação por meio da expressividade motriz, potencializar as atividades grupais, liberar as emoções e conflitos por intermédio da vivência simbólica, promover o conhecimento e a valorização do corpo de forma natural e exercer a comunicação pela linguagem corporal.
Os fundamentos psicomotores das expressões artísticas devem inter-relacionar o corporal e o cognitivo em suas ações, desenvolvendo o que Vitor da Fonseca denomina grafomotricidade (emergência da arte/cultura).
Para que a criança desenvolva habilidades manuais e praxias finas da mão e dos dedos, ela deve fazer trabalhos manuais diversos, como modelagem, recorte, colagem, exercícios de destreza e aperfeiçoamento de apreensão, tecelagem etc.
À medida que a criança desenvolve formas de expressão e habilidade motoras, ela aprende a dominar o ‘eu’ para controlar o meio (o corpo para o movimento e as mãos para a pintura e a modelagem, por exemplo). Os materiais artísticos passam a ser uma extensão da criança em sua criação.
A evolução das expressões artísticas se desenvolve por meio da integração dos sentidos, do corpo, da mente e da expressão motora.
Pintar e esculpir são ações que requerem sensibilidade visual e espacial, além de habilidades específicas para a recriação de formas, ângulos, cores, tonalidades, luzes e sombras, entre outros, que exigem complexas competências cognitivas de integração e elaboração. Também há que se ter habilidades motoras para a manipulação dos materiais artísticos e para a precisão do movimento na execução dos trabalhos artísticos.
Portanto, ao pensarmos em grafismo, as artes visuais são fundamentais para a criança, pois contribuem no desenvolvimento da maturidade motora e da prontidão da leitura e da escrita.
Bibliografia:
FONSECA, Vitor da. Psicomotricidade, perspectivas multidisciplinares. Porto Alegre: Artmed, 2004.
* Grace Ribeiro é pós-graduada em Psicomotricidade pela Universidade Paulista (UNIP), bacharel em Educação Artística pela Faculdade Mozarteum de São Paulo, bacharel em Educação Física pelas Faculdades Integradas de Guarulhos e professora de Artes Visuais da Educação Infantil e do Ensino Fundamental do Colégio Objetivo.
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