O Teatro e a Escola: um possível diálogo
*Por Juliano Barone
Atualmente, o Teatro-educação está sendo inserido nos programas pedagógicos e metodológicos de diversas instituições escolares visando desenvolver atividades internas e com o intuito final de aprimorar nos alunos questões artísticas e/ou educacionais. Como conseqüência, diversos arte-educadores estão surgindo diariamente, formados pelos novos cursos de graduação, especialização ou técnicos. Em poucas palavras pode-se dizer que o Teatro-educação se tornou um campo em ascensão e, com isso, incentiva profissionais a voltarem-se para a pesquisa acadêmica buscando novas vertentes educacionais e artísticas.
No entanto, uma questão salta à frente: se pesquisas estão sendo desenvolvidas em quantidades significativas, por que o teatro inserido na escola se mantém como uma área desvalorizada por muitos profissionais? E qual o motivo dessa desvalorização? Uma das questões que já foi observada refere-se à falta de profissionais com base artística completa (ou seja, que compreendam a música, o teatro, a dança e outras manifestações com suas singularidades) no momento da contratação. E como resolver essa questão?
Acredito que apenas a postura centrada do educador contratado, juntamente com seu projeto de pesquisa claramente apresentado, mostrando objetividade e consistência para as possibilidades arte-educativas (as quais, a meu ver, deverão se interligar com as propostas pedagógicas vigentes na escola), poderá ser a oportunidade para que a instituição agregue com seriedade um novo trabalho e desenvolva novas possibilidades conjuntamente. Por outro lado, se o arte-educador, no momento em que se deparar com os contratantes de determinada instituição, negar suas propostas e pesquisas visando apenas ingressar no quadro de funcionários contratados — tratando o teatro de forma simplista e reducionista, sem rever ou reavaliar as possibilidades que ele oferece e sem aprimorar o próprio leque de exercícios e jogos — a arte como um todo começa a perder seu sentido e o teatro, que, nas palavras de Augusto Boal, é “aquela capacidade ou propriedade humana que permite que o sujeito se observe a si mesmo, em ação, em atividade” (BOAL, 1996. p. 27), torna-se tão-somente uma reprodução técnica das sugeridas pelo “educador”.
Vale frisar que o problema se expande quando essa simplificação das possibilidades teatrais se une de maneira inapropriada às famosas cartilhas e fichários de jogos dramáticos. Desenvolvidos pelos autores-pesquisadores a fim de expor suas práticas e pontos de vista pessoais, essas cartilhas e fichários são registros para se estudar, academicamente ou na prática, determinados processos, e não para serem seguidos à risca, como espécie de receita. Não quero expor que não tenham suas funções ou importâncias; pelo contrário, são necessários para a formação de qualquer educador. Mas, na medida em que um professor ou programa pedagógico os utiliza como o único caminho a ser seguido, sem os atualizar ou reavaliar seus objetivos na realidade em que estão sendo empregados, a experiência teatral, que desde o seu nascimento se fundamenta na vivacidade do presente real em diálogo constante com o lúdico de cada participante, transforma-se em atividade meramente mecânica, em reprodução pela reprodução.
Com o intuito de propor uma negação a este fim reducionista do teatro na escola, propus, a partir da parceria do Núcleo Educatho de Arte e Educação com o Colégio Objetivo, este que disponibilizou infra-estrutura e auxílio pedagógico necessários, uma possibilidade para revitalizar o teatro dentro de uma instituição educacional. Foi nesse cruzamento de idéias entre as esferas “educador” e “escola” que nasceu uma nova vertente da inserção do teatro em ambiente escolar, a qual tem trazido ótimo resultado entre turmas do 2º ao 9º ano do Ensino Fundamental.
A proposta teve como objetivo principal proporcionar aos alunos espaços artísticos que incentivam, por si só, sua criatividade, promovendo o diálogo entre os questionamentos pessoais e os objetivos artísticos do grupo como um todo. Trabalhando com turmas autônomas de no máximo vinte alunos, desenvolveu-se as particularidades dos grupos, compreendendo suas dificuldades e facilidades ao longo do curso. As turmas podem ser compostas por alunos de faixas etárias diferentes, conforme a organização de horários e inscrições acertadas com a coordenação pedagógica.
Um dos pontos fundamentais para o andamento do curso foi a consolidação da co-autoria dos próprios alunos perante os objetivos a serem buscados. Desde a primeira aula, o diálogo se tornou o elo mediador entre professor e aluno. A força que esse diálogo carrega é algo imprescindível ao trabalho coletivo, possibilitando que todos conheçam, analisem e concluam de forma democrática sobre temas que vão surgindo ao longo do processo de aprendizagem. A seleção de uma peça, a definição de um personagem, ou mesmo os exercícios que serão realizados ao longo do ano serão sempre frutos de conversas e, posteriormente, de debates mediados pelo professor. O objetivo principal do debate no Teatro-educação é o de incentivar a exposição livre (sem pré-julgamentos) de argumentos, contraposições, propostas e idéias. Nessa questão, Olga Reverbel afirma que “orientar um debate não é tarefa fácil para o professor, pois cabe a ele criar um clima de confiança e liberdade para que o aluno expresse suas idéias livremente. (...) O debate, além de contribuir para o desenvolvimento do senso crítico, desenvolve a linguagem e a fluência verbal” (REVERBEL, 1989. p. 30). Sabe-se que a arte por si só não carrega o certo e o errado, portanto, na medida em que se tem de definir caminhos artísticos, a conversa mediada é sempre a melhor sugestão.
É pelo viés do debate que cada criança ou jovem começa a compreender a complexidade do grupo, pois, na comunicação se entende as diferenças ideológicas, culturais e sociais de cada parceiro. Pode-se buscar o objetivo em comum escondido por detrás das diferenças, e o professor, nesse sentido, deve trabalhar arduamente na lapidação das divergências, buscando o elo entre todos os integrantes. Rubem Alves já afirmava que “parte da aprendizagem, talvez a parte mais rica da experiência humana é a convivência na diversidade: crianças nas mais diversas fases de desenvolvimento cognitivo, habitando um mesmo espaço, aprendendo num mesmo espaço, ajudando-se umas às outras” (ALVES, 2003. p. 90).
Contudo, até então falou-se apenas da base que dá estrutura para o ensino do teatro propriamente dito. Mas o que vem depois (ou conjuntamente)?
Paralelamente à questão do debate e da liberdade individual, surge a pesquisa teatral que se desenvolve a partir de jogos e exercícios, como já dito antes, selecionados segundo as necessidades de cada turma, com o fim de estruturar tecnicamente cada aluno, levando em conta suas possibilidades físicas e intelectuais. Esses jogos e exercícios teatrais estão em constante diálogo com todos, sendo responsáveis por instigar a expressão guardada no interior de cada participante. A cada nova improvisação, brincadeira, jogo ou cena, o conjunto de participantes seleciona os principais tópicos para que se possa chegar a mais uma etapa: o tema central do espetáculo de conclusão. Realizado de forma democrática nos moldes do teatro colaborativo, onde cada integrante é uma parte e o todo do processo, o espetáculo não deve ser visto como uma obra profissional, acabada e bem definida. Acredito em uma apresentação aberta, como uma aula de conclusão, onde o grupo se deparará com elementos nunca antes trabalhados, tais como: luz, som, direção de cena, público, entre outros.
É interessante observar também as relações que os alunos criaram entre os trabalhos teatrais realizados na sala de aula e as demais disciplinas. No caso de Língua Portuguesa, diversos professores comentaram a melhora individual de alunos em relação à análise, compreensão e criação de textos, estes que muitas vezes acabam sendo encenados na própria aula de teatro. Já em Matemática e Ciências há uma elevação na concentração e no pensamento lógico. Outro ponto fundamental são os relatos das próprias crianças e jovens que participaram das aulas de teatro, nos quais falam sobre seus avanços, conquistas e transformações na própria vida pessoal (nos aspectos sociais, emocionais, intelectuais etc.), pois passam a desenvolver a sociabilidade, combater seus pré-conceitos e tornar-se mais decididos perante seus objetivos.
A partir dessas ações e observações dos resultados, pôde-se propor uma revisão da “hora do teatro”, visto que este não deve ser tratado como mero instrumento de acompanhamento ou de ajuda a outras matérias, mas, sim, como um elemento essencial para a formação social do ser humano. Ressalta-se ainda que todo participante, seja aluno ou professor, que lidar com o teatro de forma democrática se deparará com aquele caminho definido pela arte-educadora e pesquisadora Fanny Abramovich como vívido, sofrido, inquieto, sorridente e capaz de elevar o conhecimento do eu e do todo (ABRAMOVICH, 1985). É no trânsito dialógico entre as escolhas individuais e coletivas, não excluindo as idéias e posicionamentos do professor, mediador entre a sala de aula e a instituição escolar, que se pode construir, passo a passo, um novo rumo, relacionando arte e pedagogia, permeado de compreensão, liberdade e criatividade.
Bibliografia:
ABRAMOVICH, Fanny. “O que se anda fazendo em matéria de educação artística por aí...” In: Quem educa quem. São Paulo: Círculo do Livro, 1985.
ALVES, Rubem. Conversas sobre educação. São Paulo: Versus, 2003.
BOAL, Augusto. O arco-´íris do desejo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
LOPES, Joana. Pega teatro. São Paulo: Papirus, 1989.
MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulinas, 2006.
REVERBEL, Olga Garcia. Um caminho do teatro na escola. São Paulo: Scipione, 1989.
ROGERS, Carl. “Para uma teoria da criatividade” In: Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1961.
* Juliano Barone é pós-graduando em Globalização e Cultura pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. É ator, arte-educador e produtor teatral, além de sócio-fundador da Cia. Pé na Porta, produtor e escritor do Portal Cultura Infância e fundador e coordenador-geral do Núcleo Educatho de Arte Educação. É coordenador do curso de teatro nas unidades do Colégio Objetivo.
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