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Olhando além do que os olhos podem ver
* Por Ilda Cristina Pereira Barbosa

Houve um tempo em que o professor era o transmissor de conhecimentos, intitulando-se o verdadeiro dono do saber. Atualmente, a informação pode ser facilmente adquirida, dispensando, em várias situações, a presença do docente. Inúmeras outras mudanças ocorridas nas últimas décadas acarretaram modificações na área da educação e, consequentemente, no papel do professor.

Assim como o cenário mudou para o mestre, as famílias também passaram por transformações. O pai já não é o único que trabalha para o sustento do lar; a mulher, que antes se dedicava exclusivamente à educação dos filhos, também passou a ajudar nas despesas da casa, procurando, até mesmo, sua realização pessoal ou profissional em atividades diversificadas.

Com isso, pretende-se atribuir à educação formal não apenas a construção do conhecimento, como também todos os aspectos inerentes à formação e ao desenvolvimento pessoal que os pais não conseguem oferecer sozinhos. A família começou a querer dividir com a escola responsabilidades em relação à educação de seus filhos.

É possível trabalhar sem um grupo que respeite as normas da boa convivência, a individualidade e as diferenças, porém, é muito mais fácil atuar quando o grupo compartilha os valores necessários para uma boa educação.

É importante que o educador saia de si mesmo e tenha um olhar corajoso e investigador diante das potencialidades de cada aluno, de seus dons, suas inteligências múltiplas, seus talentos e limites. Mesmo o estudante que apresenta dificuldade pode destacar-se e, dessa forma, sentir-se valorizado, desenvolvendo sua autoestima, adequando sua postura e superando-se, pois a superação é uma experiência possível para todos. Devemos ajudar os que precisam, sem abandonar os que conseguem caminhar sozinhos. Não podemos esquecer que cada um desenvolve o que precisa em momentos diferentes e tem seu tempo próprio. Além disso, devemos considerar a riqueza do desenvolvimento humano, que não se esgota, pois estamos em constante processo de crescimento e transformação.

O modo como o professor se relaciona com o aluno, ou seja, o vínculo afetivo que ele forma, é fundamental para a qualidade da aprendizagem e para sua formação. É necessário que o educador se interesse pelas histórias de seus alunos, que, antes de criticar, valorize o que foi feito e incentive o estudante a ir além do que já sabe, percebendo quando ele deu o melhor de si. Em alguns momentos, é fundamental chamá-lo para conversar. Para alguns, isso pode parecer tempo perdido, contudo, é por meio desse diálogo que se conquista a grande chance de construir um vínculo efetivo. Essa atitude abre espaço para conhecer o aluno, compreender suas necessidades e ajudá-lo no processo de aprendizagem e nas questões emocionais, como em seu relacionamento com o grupo, por exemplo.

Para muitos professores, relacionar-se positivamente com os alunos é deixar de ser exigente e perder a autoridade. Isso ocorre quando o educador não sabe exigir do estudante o necessário para seu bom desempenho. Ao contrário, a exigência é adequada quando o aluno sabe o motivo pelo qual está sendo cobrado; neste momento, ele está maduro, pronto para isso. A imposição e a rigidez excessiva do professor assustam ou desanimam a criança, fazendo com que ela se sinta insegura ou incapaz de realizar suas atividades. Quantos alunos abandonaram a escola por se sentirem incapazes, em razão da fala de um professor?

É importante que o estudante desenvolva uma relação de respeito para com o professor, que ele se sinta valorizado e reconhecido para reforçar ou construir sua autoconfiança e, desta forma, fazer uso das vivências ocorridas dentro da escola em seu dia a dia, fora do contexto escolar.

Todos nós já nos apaixonamos por uma disciplina, quer pela identificação com o professor, quer pelo vínculo afetivo que formamos com ele, desenvolvendo uma relação positiva com a aprendizagem. Por outro lado, muitos alunos atuam de forma equivocada porque não desenvolveram os sentimentos de que precisam e que poderiam ter sido despertados por um professor sensível. Nem mesmo eles sabem o quanto são habilidosos e agem de acordo com o que pensam que são. Se o aluno acredita que é “chato”, porque todos assim o dizem, que motivo teria para ser “legal”? Se disseram que ele é bom em Português, mas não em Matemática, por mais que exista a identificação com a matéria, ele pode criar uma mensagem para si mesmo que o levará a duvidar de sua competência nessa área.

É indispensável desenvolver e valorizar atividades educacionais que enfoquem o relacionamento social, a solidariedade, a partilha, o diálogo, o respeito à ética em todas as relações humanas, a fim de preparar o aluno para a vida.

Nós, educadores, somos mediadores das descobertas de nossos alunos, e devemos estar atentos para o fato de que o conhecimento é superável, mas não a capacidade de criar. O aluno precisa fazer uso do que aprendeu, criando novos conhecimentos, pois, na atualidade, essa é a finalidade da escola.

As mudanças são rápidas, e para acompanhá-las, é de suma importância que o professor tenha segurança no que faz. Como a maioria de nós foi educada de maneira tradicional, aceitando o que foi transmitido como algo certo e definitivo, espera-se que, em muitos momentos, nos vejamos agindo dessa forma. É prioridade do professor repensar sua postura de maneira contínua, olhando atentamente para as necessidades de sua época, atualizando-se e mantendo-se aberto às exigências.

O aluno precisa amadurecer em seu relacionamento com o grupo, tendo em vista que, na vida, serão imprescindíveis o convívio social, o respeito ao outro, a disposição para ajudar e ser ajudado, a troca de experiências e o enfrentamento ao sucesso e ao fracasso. Sabe-se que a escola é o primeiro espaço coletivo no qual a criança se vê longe dos olhares de seus pais, podendo agir por si mesma, testando seus limites, criando um ambiente que pertence somente a ela, e é necessário que os pais respeitem essa experiência. É igualmente importante que se tenha confiança na escola, pois os familiares nem sempre terão acesso a tudo o que ocorre na vida escolar de seu filho e, em várias situações, a criança precisará de liberdade para agir, para exercitar sua autonomia, posicionando-se, ajudando os colegas, aceitando ou não as soluções propostas pelos professores, amigos e demais funcionários que participam do ambiente escolar.

A sensibilidade do professor é essencial para trabalhar o respeito, a partilha, a tolerância, a preocupação com o planeta etc. Esses valores estão adormecidos em cada ser humano e precisam de ajuda para despertar. É um trabalho que necessita de paciência e continuidade, pois cada ser é único e tem seus sentimentos e suas próprias histórias, mas a habilidade do professor em saber olhar e agir é o que fará a diferença na formação dessas crianças. Ele é o grande mediador das relações que se desenvolvem em sala de aula.

Muitos professores podem desanimar porque suas ações não apresentam resultados imediatos, esquecendo-se de que, muitas vezes, o que semeiam e cuidam com carinho e desvelo brotará posteriormente, com a ação cuidadosa de outros educadores.

Às vezes, o docente acredita que está sendo repetitivo; sente-se cansado, sem saber o que fazer. Creio que esteja na hora de esse professor entender que deve trocar o que chama de cansaço por persistência, confiança, paciência e, acima de tudo, amor.

Já observei estudantes que só conseguiam chamar a atenção com atitudes inadequadas. Eram criticados e continuavam agindo da mesma maneira, pois, assim, eles se destacavam, ganhando a admiração dos colegas por sua coragem. Entretanto, quando o professor evidenciava os seus aspectos positivos, os alunos apresentavam uma mudança de atitude significativa e duradoura, descobrindo-se e aprendendo novas formas de posicionar-se.

É necessário buscar novas estratégias e, em outros momentos, insistir naquela postura que parece não surtir o efeito esperado. Não se deve desistir ou acreditar que o castigo, essa atitude humilhante que levava muitos a se sentirem ridicularizados e, muitas vezes, a desistirem da escola, vá resolver o problema em questão.
 
Precisamos compreender as atitudes de cada aluno, o que há por trás de determinado comportamento, e não simplesmente dar aula e ficar feliz porque eles têm boas notas e aprenderam muito bem o que ensinamos. De que adianta esse aprendizado, se não souberem o que fazer com ele?

Não digo que o professor deva ser permissivo diante daquilo que não está correto, mas penso que, agindo de forma afetiva e criando um bom vínculo com o estudante, ele consiga reverter a situação que não anda bem. Devemos ter cuidado para não rotular o aluno e muita habilidade para intervir quando ele já traz esse rótulo, proporcionando-lhe a oportunidade de recomeçar.

E se me perguntarem: “Como?”, eu responderei: “Olhando além do que os olhos podem ver!”

* Ilda Cristina Pereira Barbosa é graduada em Pedagogia pelas Faculdades Integradas Campos Salles e pós-graduada em Psicopedagogia pela UNIFIEO. É professora do Ensino Fundamental (2º ao 5º ano) do Colégio Objetivo, unidade Alphaville.

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