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Falando sobre Adolescência
* Entrevista concedida por Marcus Vinicius Mathias, professor e psicólogo do Colégio Objetivo, à Revista Linha Direta, em outubro de 2009.

1. Como o adulto pode entrar no mundo do adolescente?
Durante toda a minha carreira, venho observando que para um adulto fazer parte do mundo do adolescente, não pode se julgar o dono da verdade, o detentor único e exclusivo do conhecimento. Isso é ponto fundamental para que seja aceito e respeitado.
Há mais. Não devemos menosprezar o que o jovem tem para contar, porque é dele gostar de descobrir e de repassar suas descobertas. Não podemos incorrer no grande erro de achar banal aquilo que para o adolescente é importante; não devemos ser críticos o tempo todo.
Nosso comportamento deve ser o de um ouvinte que compreende a fase vivenciada por aquele que nos fala, ou seja, fase que abrange a transição entre o universo infantil e o adulto.
A adolescência não é só uma fase da vida: ela é, sim, a própria vida, cheia de energia, entusiasmo e transformação, que nos desafia a lidar com crianças quase adultas, para que, com paciência e humildade, possamos mostrar os melhores caminhos a seguir.

2. Como falar a mesma língua e estabelecer um diálogo com eles?
Para falar a mesma língua e estabelecer um diálogo com os adolescentes, é preciso levá-lo a sério. Isso exige que se conheça e respeite a cultura jovem, identificando suas gírias, as grifes da moda, os ídolos, as leituras, o gosto musical, as baladas etc.
Mergulhar nesse mundo não significa tornar-se um adolescente, mas apenas demonstrar que está apto a entendê-lo. É preciso conhecer as várias tribos, complexas em sua estrutura por possuir cada qual a sua linguagem, ao mesmo tempo em que coletivamente apresentam só uma, a linguagem jovem. Devemos estar preparados para entender o que cada grupo fala, conhecer os seus interesses e costumes, saber ouvi-los, sem conferir juízo de valor, pois, para o jovem, cada problema ou acontecimento vem taxado de extrema importância e é preciso que entendamos esse fato. Falar a mesma língua, acima de tudo, requer respeito.

3. O que falta à formação dos jovens de hoje?

O jovem da atualidade é nascido e criado em um ambiente tecnológico. Todos os dias surgem mais e mais informações para suprir uma incessante necessidade de atualização: são novas ideias, novos sons, ritmos, movimentos, aparelhos tecnológicos, vestimentas, concepções científicas e educacionais, enfim, são transformações constantes.
O mundo exterior à casa do adolescente e a ação da mídia evidenciam que é imperioso consumir, acompanhar as evoluções, interagir com o novo, mesmo que o custo disso seja pular a vivência de fases normais ao crescimento e amadurecimento de um jovem.
Isso é fantástico e ao mesmo tempo preocupante. O jovem tem acesso a informações e vivências que a minha geração levou anos e anos para aprender ou tomar conhecimento, no entanto, também tem acesso ao bem e ao mal, em alta velocidade.
Assim, acredito que na atualidade o que está em falta na vida de um jovem é a formação religiosa, que perde espaço para a valorização material.

4. E qual o papel da família e da escola?

 A família é o porto seguro do adolescente. Nela, ele se forma, adquire os seus valores e, mesmo que muitas vezes questione essa instituição, deseja que ela seja perene, pois sempre será o seu ninho de amor e segurança.
A escola é a segunda família do jovem, é onde ele passa a maior parte do
tempo. Além de fazer com que o estudante adquira conhecimento, a escola o ajuda a amadurecer e se entrosar na sociedade, sempre respeitando os valores que ele traz de casa.
Juntas, escola e família têm o poder de formar adultos sadios.

5. Muitas vezes, pais e/ou educadores reprimem comportamentos que são normais na adolescência. O que deve ou não ser tolerado?

A afetividade que devotamos ao adolescente associado ao bom senso na tomada de decisões nos faz enxergar o certo e errado. Devemos levar em conta que estamos construindo os adultos de amanhã, por isso temos que incutir em nossos jovens o estímulo às práticas cidadãs e éticas, além do respeito, amor ao próximo, solidariedade, preservação de nosso planeta, enfim tudo que irá favorecer a sua convivência em sociedade.
Falta de limites, violência, drogas, agressividade são atos intoleráveis e devem ser reprimidos, mas não basta reprimir, é preciso orientar. Essa é a palavra de ordem para que o adolescente entenda que esse não é o caminho. Os jovens são pura energia, e muitas vezes a nossa falta de paciência nos leva a pensar em reprimir. Mas não podemos esquecer que estamos trabalhando com seres em formação, e por isso, antes de qualquer repressão, deve haver orientação.

6. Por que essa fase é considerada tão difícil para os jovens e também para aqueles com quem convivem?

Não é uma fase difícil, é uma época de transformação da criança em adulto. Toda transformação, se não for bem entendida, bem trabalhada e bem recebida, gera conflitos. O adolescente deve entender as mudanças que estão acontecendo com ele, estar preparado para as novas descobertas e responsabilidades, para as alterações hormonais e de humor, e transitar para a nova fase com tranquilidade e amadurecimento.
As pessoas que estão em sua volta devem valorizá-lo, entendê-lo, apoiá-lo, ouvi-lo e ajudá-lo nesse período. A calma e a paciência são os melhores remédios para essa transição

7. A
que você atribui a violência cometida pelos jovens no ambiente escolar?Acho que a violência, seja na escola ou fora dela, não deve ser tolerada. Nunca devemos deixar a falta de limites falar mais alto, porque isso é que culmina em violência.
Na escola, especialmente, é preciso que haja um trabalho de orientação preventivo para que a violência não ganhe lugar. Cabe aos professores e aos orientadores detectar antecipadamente o jovem cujo comportamento foge do tolerável no ambiente escolar. Esse jovem deverá ser orientado, ajudado, guiado a estabelecer um entrosamento saudável com a comunidade escolar, evitando-se, assim, que a violência se efetive.

8. Hoje muitas escolas contam com a ajuda do orientador educacional. Qual a função desse profissional?

O orientador é uma peça-chave na escola, elo entre as pessoas, direta ou indiretamente, ligadas a ela.
É ele que atende alunos, professores, pais e funcionários e, justamente por lidar com todos, sabe onde estão os problemas. Ele tem o papel de unificador e procura recriar harmonia na busca pela alegria coletiva, que se traduz em um trabalho incessante e cotidiano, para que todos usufruam de um clima amigável na escola.
Imprescindível para esse fim é o relacionamento de confiança que se estabelece na comunidade escolar. O orientador, identificado com seu trabalho, é aquele que está mergulhado de corpo e alma nos problemas educacionais da instituição, sempre trazendo novas ideias e soluções.
Uma escola que oferece orientadores aos alunos passa às famílias a certeza de que tudo fará pelo crescimento intelectual e emocional daquele ser em formação.

Marcus Vinicius Mathias é psicólogo, pós-graduado em Psicopedagogia e mestre em Educação pela Universidade Paulista (UNIP). É diretor administrativo do Colégio Objetivo, unidade Paz, e da Universidade Paulista (UNIP), campus Chácara Santo Antonio.

Livros publicados:
1. O mundo de um educador: um educador no mundo, editora Arte e Ciência, 1999.
2. Histórias de adolescentes: crônicas de um educador, editora Arte e Ciência, 2000.
3. Novas histórias de adolescentes, editora Arte e Ciência, 2001.
4. Momentos relatados – a arte de ouvir de um educador, editora Arte e Ciência, 2003.
5. Coleção Durma com esse barulho: adolescência e namoro, editora Arte e Ciência, 2005.
6. Adolescência e família, editora Arte e Ciência, 2005.
7. Adolescência, drogas e violência, editora Arte e Ciência, 2005.
8. Um homem chamado Layr – uma história de vida, editora Independente, 2006.

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